segunda-feira, 13 de abril de 2015

13 de Abril

Recomeço-te este blog depois de um mês. Um mês perto de ti, mãe. Intenso, forte, como nunca. Acho que como nunca o vimos ou sequer pensámos sentir.

Estou ainda no avião, a passar por Fortaleza, a chegar ao Brasil.
E neste recomeço quero falar de ti. A minha mãe.

Eu conheço-te bem mãe. Muito bem. Mas neste mês conheci-te mais ainda. Essa possibilidade não me tinha passado nunca pela cabeça, mas hoje reconheço essa realidade. Conheci-te ainda mais.

Disse-te várias vezes, sempre que te toquei as mãos, como gostava delas. E elas estiveram-me sempre na memória, em todos os meus escritos. E o bom da memória é quando a temos de volta de forma real. E eu tive tantas vezes as tuas mãos nas minhas, nestes dias. E se queres que te diga é isso que levo maior dentro de mim. As nossas mãos a tocarem-se.
O corpo, como sabes foi difícil... à frente, atrás, de lado... tudo estava magoado no teu corpo, mãe. Tão frágil que estavas por fora.... Mas as mãos não. As mãos eram as mesmas. E levo-as comigo por este tempo em que estaremos separadas de novo. Na memória e no corpo. Físico.

(...)

Toquei à campainha... Estava nervosa. Parecia que ia conhecer alguém novo e não abraçar aquela que melhor conheço. Estava nervosa. E abres-me. Mais bonita do que alguma vez imaginei, de camisola azul esverdeado macia sorris-me, a medo também... Sorris assumindo-te como uma nova pessoa. Eu eu não sabia já o que fazer, o que pensar... Deixei-me ir pelo teu toque quente... Era a única coisa que podia fazer e no fundo o caminho que me seguiria a perceber tudo o que se estava a passar. Aos pouco tive de esquecer a minha negação em que as coisas estavam diferentes. Em que as coisas eram diferentes. Aos poucos tive de aceitar que eram. Que eu ia cuidar de ti. E agora era assim. Eu cuidaria de ti. E fui-me habituando ao meu novo papel e apaixonei-me por ele e por ti, mais ainda.

Foi muito bom, mãe. Muito bom. E quanto tudo isto terminar, seremos mais fortes, mais unidas. Ainda mais nós. Atravessei o Atlântico mas fiquei aí. Sinto de verdade isto. Sinto que aqui no Brasil sou apenas um corpo que vagueia pelas ruas e faz o que tem de ser feito. Sinto que tudo eu. Sim, tudo eu, ficou aí. Voando pelos ares de Lisboa a sorrir-te quando vais aos Lusíadas e atravessando os ventos da Escravilheira abraçando-te quando adormeces na cadeira cor de laranja.

Toda a minha ternura está aí. Ficou aí. E isso eu não posso mudar. Isso sim é mais forte do que eu. Não sentes?