quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Não penses que não sinto



Oh mãe!
Oh mãe!

Não penses que não sinto.
Não penses que não sei.
Não penses que estou alienada por só falar de coisas que não são.
Por só escrever sobre coisas que não são.
Não.

Eu sinto.
Eu sei.
Eu estou aqui.

Mas desta vez é mais fácil.
É uma seca.
Mas é mais fácil.
Desta vez é rápido. Simples.
Não vai ser nada. Não vai.

E eu vou estar lá. Para te ajudar.
Estarei perto. Vou dar-te as mãos.
De novo. Sempre.

domingo, 7 de junho de 2015

07 de Junho

Querida mãe.
Hoje foi o dia em que me enviaste uma foto tua por mail. Uma foto que transpira Verão e transpira um pouco mais de calma.
É quase enlouquecedor ver essa foto e pensar no mês de março ao mesmo tempo.
O coração aperta ao pensar nos momentos de grande aflição que vivi. Junto de ti. Junto da tia.
A vida pega-nos, amachuca-nos, atira-nos a um canto esperando que o nosso papel se volte a moldar ao que era. Ao que éramos antes. E não somos mais iguais.
Somos mais frágeis. Mais fortes. Mais atentos e mais aluados.
Somos muito mais depois de sermos despidos e confrontados com  a película frágil que finge que nos protege.

Vejo-te ainda mais bonita e isso é o que me deixa mais feliz.

Como estás depois de tudo isto?
Já é depois? Para ti ainda é agora?

Eu fiquei mais frágil, com maior distância... e nem sabia que isso era possível. Uma distância aumentar num coração.

Queria, depois de tudo o que passámos, viver o Verão contigo.
As cores, os fatos de banho, o sol na pele e a água no corpo.

O Verão que retorna com sua beleza. Verão maior ainda. Beleza maior ainda.

Saudades das tuas mãos morenas, que terminam com unhas curtas e limpas. Que aquecem como a película que é a nossa pele.

Um abraço pensando no retorno ao nosso encontro logo.

Sempre assim.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

13 de Abril

Recomeço-te este blog depois de um mês. Um mês perto de ti, mãe. Intenso, forte, como nunca. Acho que como nunca o vimos ou sequer pensámos sentir.

Estou ainda no avião, a passar por Fortaleza, a chegar ao Brasil.
E neste recomeço quero falar de ti. A minha mãe.

Eu conheço-te bem mãe. Muito bem. Mas neste mês conheci-te mais ainda. Essa possibilidade não me tinha passado nunca pela cabeça, mas hoje reconheço essa realidade. Conheci-te ainda mais.

Disse-te várias vezes, sempre que te toquei as mãos, como gostava delas. E elas estiveram-me sempre na memória, em todos os meus escritos. E o bom da memória é quando a temos de volta de forma real. E eu tive tantas vezes as tuas mãos nas minhas, nestes dias. E se queres que te diga é isso que levo maior dentro de mim. As nossas mãos a tocarem-se.
O corpo, como sabes foi difícil... à frente, atrás, de lado... tudo estava magoado no teu corpo, mãe. Tão frágil que estavas por fora.... Mas as mãos não. As mãos eram as mesmas. E levo-as comigo por este tempo em que estaremos separadas de novo. Na memória e no corpo. Físico.

(...)

Toquei à campainha... Estava nervosa. Parecia que ia conhecer alguém novo e não abraçar aquela que melhor conheço. Estava nervosa. E abres-me. Mais bonita do que alguma vez imaginei, de camisola azul esverdeado macia sorris-me, a medo também... Sorris assumindo-te como uma nova pessoa. Eu eu não sabia já o que fazer, o que pensar... Deixei-me ir pelo teu toque quente... Era a única coisa que podia fazer e no fundo o caminho que me seguiria a perceber tudo o que se estava a passar. Aos pouco tive de esquecer a minha negação em que as coisas estavam diferentes. Em que as coisas eram diferentes. Aos poucos tive de aceitar que eram. Que eu ia cuidar de ti. E agora era assim. Eu cuidaria de ti. E fui-me habituando ao meu novo papel e apaixonei-me por ele e por ti, mais ainda.

Foi muito bom, mãe. Muito bom. E quanto tudo isto terminar, seremos mais fortes, mais unidas. Ainda mais nós. Atravessei o Atlântico mas fiquei aí. Sinto de verdade isto. Sinto que aqui no Brasil sou apenas um corpo que vagueia pelas ruas e faz o que tem de ser feito. Sinto que tudo eu. Sim, tudo eu, ficou aí. Voando pelos ares de Lisboa a sorrir-te quando vais aos Lusíadas e atravessando os ventos da Escravilheira abraçando-te quando adormeces na cadeira cor de laranja.

Toda a minha ternura está aí. Ficou aí. E isso eu não posso mudar. Isso sim é mais forte do que eu. Não sentes?

domingo, 22 de fevereiro de 2015

22 de Fevereiro

De repente estás em surdina.
De repente não tens o que dizer aos outros.
De repente és só tu, num silêncio absurdo, que chegou com uma tranquilidade de proveniência esquecida.

Exercício de mim. 
Exercício de esquecimento atrás. 
Atrás de mim, a vida.

Caminhas pela Alagoas, todos os dias, 20 minutos até chegares ao posto. Vês o restaurante com a promoção do dia (normalmente sempre frango, seja com quiabo ou xadrez), segues e tens a "Papaia" com o melhor açaí recomendado pela revista VejaBH. O restaurante de massas, mais à frente, é chique, elegante e tem sempre dois homens mais velhos sentados, almoçando ou jantando (dependendo se vais ou voltas), falando de negócios. São sócios, parceiros, empreendedores. Homens com medos. Com medo. Com mulheres. Sem cabelo e com gravata. Sorriem pouco. Pouco sei. A montra do restaurante são potes de vidro com massas de diferentes cores. Bonito. Pouco ousado. Esperado.

E o que espanta é a casa de lençol que uma família construiu mais à frente. Os lençóis fazem as divisões entre os cómodos, mas o chão é aquele que todos pisam para seguir caminho para lugar algum. Têm discussões de família normais, filhos, e casa de banho pública que é privada para eles. Uma das paredes não é lençol. É a loja de um edifício para alugar. Não têm cães e não sabes se saem para trabalhar.






















Antes de passar por tudo isso, existem duas mulheres com pouco mais de meia idade que são montra da rua, e estão em frente aos seus computadores. Têm cara de quem pouco farão nas duras horas diárias que lhes cabem. Só há dois tons naquela montra: branco e cinza. Até os cabelo pintados de amarelo louro, das duas, são cinzentos. Os lábios são finos. A secretária onde estão sentadas é cercada de pequenas paredes de plástico que lhes dá a ideia errada de individualidade própria. Era para ser um open space, mas pequeno. Mínimo. Menor que pequeno. E as duas estão lá, em luz branca, fria como tudo o resto.

E no final, o teu silêncio para os outros vem da repetição do gesto. A única palavra é sobre eles que estão ali na repetição do dia como o sol: o frango, a papaia, os homens de negócios, a família de lençol, as duas mulheres do escritório. 

E basta isso para uma tranquilidade sem sentido e sem lugar de nascimento. Uma tranquilidade que te deixa intranquila. Sempre a inquietação.

Volta o exercício do esquecer, do amar e do ser.

Volta a saudade do que já não se é e de facto nunca se foi.

Voltas tu, à agora minha cabeça, que és a minha única verdade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

19 de Fevereiro

Querida mãe,

hoje, como ontem, partilho contigo um poema. 

Desta vez sobre o amor.

O amor dos amantes. 
O amor que quando lemos nos parece tão certeiro, tão fácil. Mas na vida real se mostra tão raro. 
Tão único. Tão escondido. Tão solitário.

/////////


a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se
importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
─ o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram) que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; cada parte permanece quieta:
  
e.e. cummings

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

18 de Fevereiro


















ar livre

enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
e a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
os olhos verdes no mar.
o corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!

edmundo bettencourt