De repente estás em surdina.
De repente não tens o que dizer aos outros.
De repente és só tu, num silêncio absurdo, que chegou com uma tranquilidade de proveniência esquecida.
Exercício de mim.
Exercício de esquecimento atrás.
Atrás de mim, a vida.
Caminhas pela Alagoas, todos os dias, 20 minutos até chegares ao posto. Vês o restaurante com a promoção do dia (normalmente sempre frango, seja com quiabo ou xadrez), segues e tens a "Papaia" com o melhor açaí recomendado pela revista VejaBH. O restaurante de massas, mais à frente, é chique, elegante e tem sempre dois homens mais velhos sentados, almoçando ou jantando (dependendo se vais ou voltas), falando de negócios. São sócios, parceiros, empreendedores. Homens com medos. Com medo. Com mulheres. Sem cabelo e com gravata. Sorriem pouco. Pouco sei. A montra do restaurante são potes de vidro com massas de diferentes cores. Bonito. Pouco ousado. Esperado.
E o que espanta é a casa de lençol que uma família construiu mais à frente. Os lençóis fazem as divisões entre os cómodos, mas o chão é aquele que todos pisam para seguir caminho para lugar algum. Têm discussões de família normais, filhos, e casa de banho pública que é privada para eles. Uma das paredes não é lençol. É a loja de um edifício para alugar. Não têm cães e não sabes se saem para trabalhar.
Antes de passar por tudo isso, existem duas mulheres com pouco mais de meia idade que são montra da rua, e estão em frente aos seus computadores. Têm cara de quem pouco farão nas duras horas diárias que lhes cabem. Só há dois tons naquela montra: branco e cinza. Até os cabelo pintados de amarelo louro, das duas, são cinzentos. Os lábios são finos. A secretária onde estão sentadas é cercada de pequenas paredes de plástico que lhes dá a ideia errada de individualidade própria. Era para ser um open space, mas pequeno. Mínimo. Menor que pequeno. E as duas estão lá, em luz branca, fria como tudo o resto.
E no final, o teu silêncio para os outros vem da repetição do gesto. A única palavra é sobre eles que estão ali na repetição do dia como o sol: o frango, a papaia, os homens de negócios, a família de lençol, as duas mulheres do escritório.
E basta isso para uma tranquilidade sem sentido e sem lugar de nascimento. Uma tranquilidade que te deixa intranquila. Sempre a inquietação.
Volta o exercício do esquecer, do amar e do ser.
Volta a saudade do que já não se é e de facto nunca se foi.
Voltas tu, à agora minha cabeça, que és a minha única verdade.

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