terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

17 de Fevereiro

Depois do dia de ontem... foi muito difícil ter coragem para sair da cama... Estávamos os dois exaustos e tivemos um dia que soube a domingo. Daqueles domingos que te contei há alguns dias atrás. 

A casa nova tem muita luz. E isso é maravilhoso. É de novo um apartamento e isso faz-me sentir um pouco mais "em casa". 

Como já havia te dito é num andar muito alto: vigésimo segundo. O elevador demora exatamente 1 minuto e 5 segundos a subir desde o térreo até lá a cima. A mudança foi rápida. Alguns objetos ainda estão na outra casa. Tudo está entulhado, ainda. Nada está no lugar final. Faz parte. É bom.

O facto de ser muito alto, ali naquele lugar, permite-nos ter uma vista muito bonita sobre a cidade. O primeiro acordar ali foi inesquecível:

Eu estava deitada e abri os olhos. Vi um céu com várias tonalidades. Lindo. Fiquei a namorar aquele céu sozinha por uns tempos até que partilhei: 

- Olha o céu...
E ele responde-me
- Levanta um pouco mais a cabeça.

















Quando levantei o corpo deparo-me, ao fundo, com umas montanhas negras. Escuras. Uma serra. E, atrás delas, um laranja fortíssimo, carregado. A imagem era tão bonita e marcou-me tanto que me assaltou a memória várias vezes ao longo desse dia. Foi uma sensação nova ver aquilo ali, tão perto. Tão longe. Tão alto.

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Os apartamentos... o mudar de casa... Sempre me lembram um livro que o pai me leu quando era miúda: "Lote 12 - Segundo Frente". 

Parece-me que aquela menina que a Alice Vieira fez narrar no "Rosa minha irmã Rosa", no "Chocolate à Chuva" e neste "Lote 12 - Segundo Frente" nunca me abandonou. Está aqui ainda. As estranhezas de criança ainda são possíveis de as sentir. O olhar inocente ainda é capaz de correr no meu corpo alegremente. É a memória? Não sei... porque chega a ser algo físico. Definitivamente algo físico. Dentro de mim.


Passo a mão pela testa, meu Deus, a barafunda que por aqui vai, este não saber de coisa nenhuma, querer um lenço, uma esferográfica, um chinelo, e tudo estar nos sítios mais inacreditáveis, levantar a mão para acender um interruptor do quarto e a mão andar a nadar pela parede, ora mais para cinema, ora mais para baixo, ora mais para a esquerda, ora mais para a direita, e de repente dar com o interruptor mesmo diante dos nossos olhos só que na parede do outro lado.
- Os interruptores são sempre do lado direito! Que casa é esta que tem os interruptores na parede do lado esquerdo? Isto foi feito para canhotos ou quê?
Perguntas, perguntas, perguntas.
Ninguém me responde, eu sei. Nem eu estou à espera da resposta deles, que sabem tanto desta casa como eu. Desta casa onde tudo me parece virado do avesso, disparatado, feito com a única finalidade de me irritar. Desta casa para onde viemos vivier. História um bocado complicada, segundo percebi.
Uma noite a mãe chamou-me e disse:
- Vamos mudar de casa.
Assim de repente, como se me estivesse a dizer a coisa mais natural do mundo. Com a mesma simplicidade com que me costuma dizer " vamos à Baixa", ou  "vai arrumar o teu quarto".
- Mudar de casa?
Acho que devo ter feito uns olhos enormes porque o meu pai, na brincadeira com a minha irmã Rosa, pareceu ficar de repente muito divertido e perguntou:
- Não sabes o que é mudar de casa? É pegar na tralha toda que temos aqui dentro e levá-la para outro sítio. Pronto.

(...)

Passei as últimas seis semanas a apalpar as paredes, à procura de interruptores que não estavam lá. A ouvir silêncios, à procura de vozes que não ecoarão nunca nestes muros. A tropeçar nas coisas mais inusitadas, a procurar coisas que só aparecem quando já deixaram de ser precisas. A destralhar. Sinto-me a brincar às casinhas, moro numa casa que "ainda não cheira a mim", demoro a tomar possessão deste espaço, tão grande e tão pequeno, que só agora me vai conhecendo as lágrimas e as gargalhadas. Projecto o meu futuro aqui. É o presente que me está a custar viver."


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