Querida mãe,
o melhor do meu dia, hoje, foi o momento em que vieste falar comigo.
Que bom umas palavrinhas. Que está tudo bem. Que estás em casa. E agora começa o início daquele "salto branco" que eu falei no dia 1 de Fevereiro.
Hoje foi um dia perfeitamente banal. A única coisa diferente foi que o Augusto já pôs as malas na casa nova, mas ele fez sozinho... eu nem vi. Queria ajudá-lo mas estava a trabalhar. Amanhã devo conseguir dar uma força.
Não há ninguém melhor que nós duas que saiba o peso de uma mudança de casas. Embalar móveis, livros em caixas, panelas em jornal. Muita coisa. E as pessoas parece que sabem pouco o quanto isso custa. São poucas as que se disponibilizam para ir dar uma força.
Hoje lembrei-me quando em Benfica, tínhamos tudo pronto, nem nos sofás nos podíamos sentar e o camião das mudanças simplesmente não apareceu. Lembro-me de ti à janela a olhar para a rua. Era muito cedo. E nada. Começaste a stressar-te e eu achei um exagero. Daqui a nada ele chegava. Mas não. Não chegou e eu só me queria rir. Como é que alguém faz isso? Até que ligámos para uns russos. Quem é que tinha dado o contato, lembras-te? Ou não?.... Ai mãe estou a confundir tudo! Os russos foi do Principe Real para o Saldanha. E quem foi de Benfica para o Principe Real? Que confusão! Já foram tantas mudanças!...
Mãe guerreira!
Fez todas sozinha, normalmente com uma criança ou um adolescente ao lado!
Mãe guerreira! :)
Daqui a pouco vamos a um aniversário de uma amiga. Nada demais!
O trabalho novo é bom. As pessoas são muito simpáticas. O "material" é relativamente simples de montar. E faz bem para o tempo ir passando. Quero que o tempo passe, só para a nossa distância diminuir.
Acho que as palavras que usei mais neste blog foram "saudade" e "distância".
Almocei bem. O melhor foi a cenoura ralada e a beterraba ralada. Comi lagarto (está muito na moda o lagarto por aqui. Porque será?). Batatas cozidas. Arroz integral. Sumo de laranja natural.
O melhor do meu dia, hoje, foi o momento em que vieste falar comigo.
Hoje foi um dia perfeitamente banal.
Lembrei-me do inicio de um livro "Filomena Firmeza", aquele que te falei que li nas férias.
Hoje, deixo-te com ele.
Abraço-te.
Abraço-te.
Abraço-te.
(...)
Neva hoje em Nova York. Pela janela do meu apartamento, na rua 59, vejo o prédio em frente onde fica a escola de dança que eu dirijo. Por trás da fachada envidraçada, as alunas de collant terminam suas pontas, meias-pontas e entrechats. Minha filha, que trabalha como minha assistente, mostra a elas um passo de jazz, para descontrair.
Daqui a pouco vou me juntar a elas.
Entre as alunas, há uma menina que usa óculos. Ela os deixou sobre uma cadeira antes de começar a aula, como eu fazia com essa mesma idade nas aulas da senhora Dismailova. Não se dança de óculos. Eu me lembro de que, na época da senhora Dismailova, eu treinava durante o dia para conseguir ficar sem os óculos. O contorno das pessoas e das coisas perdia a nitidez, tudo se tornava desfocado, até os sons pareciam mais abafados. O mundo, quando eu o via sem óculos, perdia a aspereza. Ficava tão suave e macio quanto um travesseiro fofo no qual encostava o rosto e terminava por adormecer.
– Está sonhando com o quê, Filomena? – papai me perguntava. – Você deveria pôr os óculos.
Eu obedecia e tudo retomava a rigidez e a precisão costumeiras. De óculos, eu via o mundo tal como ele era. Não podia mais sonhar.
Aqui em Nova York, fiz parte de uma companhia de balé durante alguns anos. Depois, dirigi com a minha mãe uma escola de dança. Quando ela se aposentou, continuei sozinha. Agora, trabalho com a minha filha. O meu pai também deveria se aposentar, mas não consegue se decidir. Aposentadoria do quê, exatamente? Nunca soube a profissão dele de fato. Ele e a mamãe moram agora num apartamento no Greenwich Village. Em resumo, isso é tudo o que tenho a dizer sobre nós. Somos nova-iorquinos, como tantos outros. A única coisa um pouco incomum é a seguinte: antes de virmos para os Estados Unidos, passei minha infância no décimo arrondissement, um bairro de Paris. Lá se vão trinta anos.



Nenhum comentário:
Postar um comentário