terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

10 de Fevereiro

Querida mãe,

Há uns tempos comecei a ler "A Vida do Espírito" da Hannah Arendt. Ela propõe que as coisas que existem no mundo têm em comum uma coisa: nasceram para "serem vistas, ouvidas, tocadas, provadas e cheiradas, para ser percebidas por criaturas sensíveis, dotadas de órgãos sensoriais apropriados." Ou seja, nada e ninguém existe neste mundo sem um espectador. 

Tudo pelo que estás a passar existe e eu não vejo. Não sou espectadora de ti, agora. Não te vi hoje sentada, no primeiro dia de tratamento. Não sei se leste, não sei se tinhas o iPad contigo, não sei quem estava ao teu lado. Não sei quem te beijou, não sei quem te abraçou. Apenas este dia existiu na minha imaginação e eu pensei em ti todos os minutos. Quando te imaginei estavas com o iPad. Estavas tranquila pensando "tem de ser e vai passar". O Jean estava ao teu lado. Recebeste ligações no telefone da Isabel, da outra Isabel e da outra Isabel. Depois de uma hora começaste a ficar inquieta e a querer ir embora. Irritou-te não o poderes fazer. Talvez cumprimentaste alguém ao teu lado. Eras a estranha, a nova. 

Mas eu não disse a ninguém que todos estes minutos, todas essas horas eu estava a pensar em ti, a imaginar-te. E então? Estes meus pensamentos são reais? São reais sem espectador? Sem ouvinte? Só dentro de mim? E os sentimentos precisam de espectadores? De ouvintes? 

Neste blog eu escolho o que te torno real. Não sabes ainda do anel que comprei na Bahia, das malas feitas para a casa nova, do que vesti hoje, do que almocei. 























E talvez por isso, a distância seja difícil. Porque ela corta as pernas da nossa realidade. A única coisa que podemos fazer é criá-la, escrevê-la...

Mas... se os nossos pensamentos não são reais quando não os tornamos verbais, então nós também não existimos, pois pensamos o tempo todo. Ou então, por onde estamos quando não pensamos? E o que significa isso da ausência de pensamentos? Pensar sem som? Pensar será a possibilidade de ver? Ou ver é a possibilidade de pensar? Sem imagem? Sem som? Sem cinema? Sem nós?

Tenho ânsias que a nossa realidade fique (mais) real. A minha e a tua. Que eu saiba como é a cadeira que te sentas quando fazes tratamento, como são os teus olhos nesses dias, como é o que te rodeia. Sei que em breve vou fazê-lo e vou estar perto, mas nunca pensei que a imaginação magoasse mais que o real. Sempre pensei o contrário. Mas, neste caso, magoa-me que me reste apenas a criação. 

Fiz este blog para que, ao menos, essa criação e essa imaginação seja para ti. E, muitas das vezes, sobre ti. 
Mas por outro lado, já que existe essa distância agora, que bom que nos resta isso... que nos restam as imagens e o pensamento (real ao não) para nos aproximar. 

A importância que a moldura com as nossas fotos te fosse entregue em mãos era para que algo, agora, se tornasse (mais) concreto. Para que pegasses. Para que existisse. Porque, talvez para mim, as coisas existam e eu sou espectador do meu próprio mundo, mas elas ganham outro sentido quando partilhadas com quem amo. Contigo.

"Já que os seres sensíveis - homens e animais, para quem as coisas aparecem e que, como receptores, garantem sua realidade - são eles mesmos também aparências, próprias para e capazes tanto de ver como de serem vistas, ouvir e serem ouvidas, tocar e serem tocadas, eles nunca são apenas sujeitos e nunca devem ser compreendidos como tal".

Mãe, na imaginação posso tentar o que eu quiser. 
Mas só tu me poderás dizer: "correu tudo bem, querida. até já" para que isso se torne real para mim também.

Então, aguardo-te. 
No teu tempo. 
No teu silêncio. 
Na tua imaginação.

Sou tua espectadora.

:))

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