Querida mãe,
aqui as coisas são diferentes. Aqui, as paisagens são diferentes daí. A comida é diferente, o cheiro é diferente, as pessoas são diferentes, as cores são diferentes, o toque, os transportes, o céu, o ritmo, o movimento, a palavra e o som.
Aqui é diferente daí.
Aqui não há mar, não há mãe, não há ar, não há chão.
Aqui não há rio.
Mas aqui, mais do que aí, há goiabas. Aprendi a gostar. No jardim da casa do Augusto há uma árvore de goiaba. E hoje nasceu mais uma. Cada dia nasce uma nova. E amadurecem na árvore, suspensas, até ficarem amarelas e doces. Comem-se como uma maçã, mas o caroço é horizontal e não vertical.
Agora arranco da árvore e como. Como como uma criança descalça num quintal, num jardim, no campo. Na verdade, o lugar não interessa. Interessa que seja como uma criança. E que seja descalça.
A textura é estranha. É nova. Como tantas outras "texturas" que por aqui se estranham e ao fim de quatro anos, ainda se estranham.
As nuvens brancas carregadas vieram para ficar. A chuva não é constante, mas quase. E faz frio. Mas agora é Verão. É estranho. Ao fim de quatro ano ainda se estranham as estações ou a falta delas.
Hoje vesti as minhas calças verdes. Prendi o cabelo muito alto e pintei-me (como tu dizes). E por isso, enquanto fiz isso tudo pensei em ti. Em frases que já te ouvi dizer mais que uma vez.
- "Prende o cabelo bem alto. Isso!!"
- "Pinta-te. Põe-te bonita."
- "Mexe-te."
É sábado. Vou agora ao cinema ver o novo filme dos irmãos Dardenne. Dizem que é bom. Depois conto-te.
Acordei com o teu email e foi tão bom. Sei que tens amigos aí hoje. Que vão almoçar e que com certeza se vão rir. É assim que vos imagino. Em algum momento irás para a tua cadeira cor de laranja. Ler, jogar um jogo, embora eu sinta que hoje só te vás sentar lá. Olhas as plantas que estão na varanda e espero que em algum momento sintas o enorme beijo que te envio e que não o estranhes. Que esses sejam sempre nossos sem nunca se estranharem. Mesmo à distância.
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