quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

5 de Fevereiro

- Fala-me sobre os felizes. - pediu ela - conta-me tudo o que sabes sobre eles.

Estavam os dois. 
Numa mesa redonda com toalha vermelha (quase parecia toalha de Natal). 
Ele sorriu. Por momentos quase que eles poderiam ser os felizes.

Ela pediu de novo:

- Fala-me sobre eles. 

Os felizes eram os que aceitavam ser o que podiam. Pelo menos, acediam à estabilidade e sabiam com o que contar. Tinham as contas feitas em relação aos afetos e às expectativas. Ele sabia disso. E por isso não poderia estar no grupo dos felizes. E era por isso que ficava em silêncio fitando os olhos ternos dela.

- Queres mais chá? - perguntou ele

(...)

Não estou a conseguir avançar nesta ficção que comecei agora. Queria escrever sobre os felizes. Sobre quem são eles através de um casal que ama, que sonha e que é feliz.

Veio-me à cabeça escrever sobre os marinheiros que desbravaram os mares. Que ultrapassavam tudo para fugir à rotina, conhecer novas terras, novas gentes. Mas perdi o fio. Afinal essa coisa dos felizes é muito mais complicada do que parece.

Querida mãe. 
Estou aqui. 
Felizes somos nós, só de podermos passar pelo mundo e nos termos uma à outra. 

Querida mãe.
Estou aqui.
Na saudade que me consome a cada minuto por um abraço já.

Somos nós numa mesa redonda. Sem toalha, talvez. A rir de tudo o que nos rodeia e a gozar com as gordas de fato de treino cor de rosa. 

Somos nós a sentir o cheiro da terra molhada depois de uma chuva quente no Brasil ou uma calçada húmida em Lisboa.

É aqui. É agora.


Chegam pela água
as folhas
e ela
tão só e tão forte
guarda nas mãos 
(talvez nas mãos)
o mistério lento das cores

tem nos olhos
a inquietação anunciada
das árvores
escreve estações
no ser que deserta
as ruas
e passa
ainda passa
como se fosse à vida




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