Estavam os dois.
Numa mesa redonda com toalha vermelha (quase parecia toalha de Natal).
Ele sorriu. Por momentos quase que eles poderiam ser os felizes.
Ela pediu de novo:
- Fala-me sobre eles.
Os felizes eram os que aceitavam ser o que podiam. Pelo menos, acediam à estabilidade e sabiam com o que contar. Tinham as contas feitas em relação aos afetos e às expectativas. Ele sabia disso. E por isso não poderia estar no grupo dos felizes. E era por isso que ficava em silêncio fitando os olhos ternos dela.
- Queres mais chá? - perguntou ele
(...)
Não estou a conseguir avançar nesta ficção que comecei agora. Queria escrever sobre os felizes. Sobre quem são eles através de um casal que ama, que sonha e que é feliz.
Veio-me à cabeça escrever sobre os marinheiros que desbravaram os mares. Que ultrapassavam tudo para fugir à rotina, conhecer novas terras, novas gentes. Mas perdi o fio. Afinal essa coisa dos felizes é muito mais complicada do que parece.
Querida mãe.
Estou aqui.
Felizes somos nós, só de podermos passar pelo mundo e nos termos uma à outra.
Querida mãe.
Estou aqui.
Na saudade que me consome a cada minuto por um abraço já.
Somos nós numa mesa redonda. Sem toalha, talvez. A rir de tudo o que nos rodeia e a gozar com as gordas de fato de treino cor de rosa.
Somos nós a sentir o cheiro da terra molhada depois de uma chuva quente no Brasil ou uma calçada húmida em Lisboa.
É aqui. É agora.
as folhas
e ela
tão só e tão forte
guarda nas mãos
(talvez nas mãos)
o mistério lento das cores
tem nos olhos
a inquietação anunciada
das árvores
escreve estações
no ser que deserta
as ruas
e passa
ainda passa
como se fosse à vida

O poema final, maravilhoso, é do Gil T. Sousa
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