Abri a porta devagarinho.
Não queria acordá-la. Ela devia estar a dormir e esse sono era precioso.
A porta rangeu levemente mas não a acordou.
Ela estava deitada em posição fetal.
Encolhida.
Quietinha.
Descansada.
As mãos estavam por baixo do seu rosto e as bochechas, que eram grandes, esborrachavam-se nas suas mãos com o peso da cabeça.
Cheguei-me perto dela. Tão bonita. A respiração era tranqüila.
Na mesa de cabeceira deixei as flores que lhe comprei naquela tarde de sol. Orquídeas. Sei que ela adora. Quando acordar quero que ela as veja. Que me veja, que me sinta e que me sorria.
Saí do quarto cor de rosa, devagarinho.
Fechei a porta e aguardei no andar de baixo.
Em silêncio. Sozinha.
Mas o tempo agora, ao contrário dos meses anteriores, não me pesava mais. O tempo não pesava. Afinal, ela estava ali. Eu estava ali. Tão perto...
E por isso o tempo ficou mais leve.
Que alívio que era, estar finalmente sentada naquele sofá branco. Perto dela. Tão perto. O tempo ficava finalmente mais leve. Mais leve. Tão perto. Tão perto.
O sol pôs-se. Eu estava na mesma posição e o silêncio era ainda o mesmo.
Nesse instante oiço a porta a abrir-se devagar.
- Rita... - ouvi ela chamar-me.
- Sim...
Subi as escadas. Ela estava de camisa de noite branca, de pé, perto da porta.
Olhou para mim e sorriu. Com os olhos pediu-me o abraço que lhe dei de imediato.
Foi demorado. Um abraço de veludo: lento, bom.
Ela disse-me:
- Obrigada querida. É tão linda, a flor.
- É tua.
Passei-lhe a mão pela cabeça.
- Queres deitar-te comigo? - perguntou
- Sim!
Deitámo-nos as duas de rosto virado de frente um para o outro. Olhámo-nos nos olhos profundamente. Comecei-lhe uma história. Os meus olhos estavam muito perto do seu rosto e isso fez com que pudesse desenhar com muito cuidado o contorno dos seus lábios. Tinha sardas em toda a face.
Contei histórias sobre gatinhos que bebiam leitinho. Contei sobre uma menina que tinha uma avó que a sentava à janela e as duas regavam plantas, no final do dia.
Sabíamos da nossa intimidade. E só nós as duas sabíamos dela.
Ela sabia porque é que eu contava a história dos gatinhos e porque é que eu contava histórias de avós à janela com netas.
E só nós sabíamos. E isso era o melhor.
Abracei-a mais. Veludo outra vez: lento e bom.
E assim dormimos as duas esperando o sol que nascia de novo. E ele nascia de novo e dava-me a certeza da leveza do tempo de estar perto dela. O nosso aconchego era tão único.
Na cama, com dois edredons que ela escolheu sozinha em algum lugar: um beje e um aos quadrados rosa e beje.
Agora éramos só as duas com a orquídea nova junto a nós!
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