segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

2 de Fevereiro

A minha mãe.

(...)

A minha mãe.
A minha mãe tem amores. Tem amor.

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A minha mãe fez um curso de escrita erótica.
Do nada, um dia, comentou comigo que ia fazer um curso de escrita erótica na "Escrever, escrever". E fez. A minha mãe escreve. E tem uma forma muito particular de escrever. Descreve detalhes, cria personagens, passados, memórias e pensamentos bem "ao jeito dela"... Na minha opinião, sempre com um humor negro enraizado... (que bom!)

A minha mãe pinta aguarelas e ri-se delas. Outras vezes não, outras vezes, ela leva-as muito a sério e nem sorri: são obras primas!! Há uns meses ela comprou algumas pequenas molduras e colocou nelas as suas aguarelas. Pendurou-as numa parede de cor muito estranha que há na sua casa.

A mim. A mim, ela deu-me uma aguarela (em forma de marcador de livros) que ela fez da praia de Odeceixe quando eu parti, pela primeira vez, para o Brasil. Estávamos no carro. No parque de estacionamento do aeroporto de Lisboa. Estávamos só as duas. Eu e ela. (como sempre) E eu não me esqueço. Ainda a tenho guardada até hoje, depois de tantas mudanças de casa.











A minha mãe lê. Lê romances com capas bonitas, livros de física, prémios nobel. Ela lê o livro mais vendido naquele ano e também lê aquele que ninguém leu. (veio-me à memória um dia que fomos à fnac, há muitos anos, e ela procurava Clarice Lispector. Eu nunca tinha ouvido falar. Alguém lhe falou da Clarice Lispector.) Os outros falam-lhe de livros. Ela fala de livros. Ela oferece livros. Ela recebe livros. A mesa de cabeceira da minha mãe sempre tem mais de quatro. Uns, ela acha chatos mas dá uma segunda oportunidade. Outros, ela nem tenta a segunda oportunidade e desiste e outros ela devora! Inventivos!
A minha mãe diz que eu tenho de ler. Para a cura. Ler para curar.
E cura. A cura. Cura.

A minha mãe escreveu livros. De física. De física e de química. Vendeu-os. Ela conta que quando andava na faculdade sempre tinha um livro de física debaixo do braço. Havia uma razão. Qual era? Não me lembro.

A minha mãe comprou um carro branco. Um carro desportivo. Ela nunca foi muito de desporto. Apenas fez ginástica em patins quando era pequena e usava um maiô preto (eu acho).
Hoje faz caminhadas. Anda muitos quilómetros a pé.
Não sei se eu já vi a minha mãe a andar de bicicleta. Já? Mas de carro sim. É a mulher que eu conheço que mais conduz. Lembro-me dela ao volante. Muitas vezes, ao volante. No entanto, tenho ideia que ela tem problemas em estacionar o carro. Ela odeia e o carro dela sempre é o que está mais mal estacionado. Ela tem um carro branco que está ligado diretamente ao telemóvel e ela atende as chamadas e fala em "alta voz" com as milhares de pessoas que lhe ligam.

A minha mãe tem amigos. Tem amores. Tem amigos. Tem amigas. Tem amores.

Isabéis e Helenas são as que a rodeiam mais. Ela ri. Já disse que ela ri? E que ela faz rir? Quando ela acha algo muito engraçado, a minha mãe tem a particularidade de repetir a última frase da piada enquanto se ri. É algo muito próprio e inimitável.

A minha mãe chora. Embora ela diga que não, que não lhe saem as lágrimas. Síndrome de Sjögren!! Desculpas!! Eu sei que ela chora. Eu sinto que ela chora. E ri. Ri muito. Às vezes com muita vontade. Outras vezes com vontade. Ri dos outros, ri de si. Sem saber, ela constrói histórias sobre os outros só com o riso. Com o sorriso. Com os olhos. Com a cara, com a boca.

(A minha mãe tem amores. Tem amor.)

A minha mãe já foi magra. Muito magra. A minha já foi gorda. Nunca muito gorda. A minha mãe é bonita. É linda. Tem uns olhos verdes amarelados como eu nunca vi. Tem um nariz com um formato perfeito e a pele morena com sardas. A pele é quente. Não sei se suave. Mas é quente. As mãos sim são suaves. Sem dúvida: as mãos são suaves e eu adoro as mãos da minha mãe. E eu sei que nunca lhe disse isso.

Ela sempre pintou o cabelo com uma terra vermelha: o henê. O henê pertence à minha infância. A memória da água vermelha escura na banheira quando ela tirava a tinta do cabelo com água. Agora acho que ela já não usa henê. Agora pinta. Já teve o cabelo preto, castanho e vermelho. Nunca louro.

Desde sempre a minha mãe foi ao cinema. Foi com o segundo namorado dela e depois primeiro marido, várias vezes. Ela contou-me. Ela foi sozinha ao cinema. Foi com amigas ao cinema. Foi com amigos ao cinema. Foi com o meu pai ao cinema. Foi com amores ao cinema. Foi com o pai dela ao cinema? Não sei. Foi? Com a mãe dela terá ido alguma vez? Não sei. Diria que não. A minha mãe não foi muito ao cinema com a família. Comigo foi. Talvez mais, quando morámos só nós as duas. O último que fomos ver, qual foi? No Brasil? Será mãe? Monty Python em Belo Horizonte? Ou vimos outro em Portugal? (Deu-me saudades de ir contigo ao cinema agora. Tenho saudades tuas a cada instante que passa).

A minha mãe nunca foi cozinheira. Nunca cortou muitas cebolas nem fez muitas batatas. Mas fazia puré de pacote e grelhava bifes na manteiga. Mais tarde, depois de se reformar, a minha mãe fez brócolos gratinados no forno e tarte de tomate, espinafres e umas outras de salmão que nunca tinha feito antes. Hoje em dia não sei muito bem os hábitos de comida dela. Sei que come peixe várias vezes e bitoque no restaurante do "Muito Bom" (o dono desse restaurante sempre responde a tudo com "muito bom" e por isso ficou apelidado por "muito bom, muito bom" - duas vezes!!).
Sei também que quando não tem paciência para nada ela faz atum com massa. E acha delicioso!

A minha mãe tem amores. Tem amor. Tem-me, a mim.



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