quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

4 de Fevereiro

Querida mãe,
ao contrário dos outros dias, hoje, começo este post sem saber muito bem o que dizer. O que te dizer, ou mesmo o que me dizer a mim.

Acordei cedo. Eram 7h já tomava banho. Limpei a casa de banho, comi mamão e passei creme na pele que está dourada do sol. Gosto dela assim.

Sento-me agora no computador para finalizar uns trabalhos. Há cheiro de camomila na pele, cabelo lavado e molhado, há a madeira virgem debaixo das minhas mãos enquanto te escrevo e há um céu branco. De nuvens. Está uma temperatura boa. Matinal.

Nos últimos tempos tenho-me confrontando com diversas versões de vida. Com pessoas que querem fugir aos padrões que a sociedade impõe, mas parecem um pouco perdidas ao fazê-lo. Encontro-me com pessoas que dizem (inclusive tu) que temos de nos conhecer a nós próprios. Que o importante é que estejamos bem connosco. Eu sinto estar a um longo caminho de distância disso. Conhecer-me a mim própria? Ora quem! Estarmos bem connosco? Que tédio! Que caminho grande, eu sinto, que me falta percorrer para me conhecer verdadeiramente, para estar feliz comigo verdadeiramente...
Que coisa é essa de sair dos padrões se nós, individualmente, não somos padrão? E que padrão é esse? E será tão mau assim se eu o quiser?

Hoje vi uma foto nossa. Tinhas o teu casaco laranja de sempre e eu um pijama feio (horroroso mesmo) cinzento, de tecido polar. Fofinho. Estávamos felizes. Tenho a certeza que sim. Tu, depois de tirar a foto, deves ter subido as escadas para ires para o escritório para a tua cadeira, também laranja, ler alguma coisa. eu fiquei no andar de baixo. Colada ao radiador. Com certeza. Hábitos. Detalhes. Intimidades. Construções. Conhecer o outro. Dar espaço ao outro.

Tantas coisas que me disseste um dia e que hoje me fazem tão mais sentido. Acho que se um dia tiver uma filha e lhe disser algo que ela recuse vou dizer-lhe que é como ver um filme. Eu já o vi quase até ao fim. Ela ainda só viu o primeiro capítulo... Eu sei mais do que ela. Ou então não! E essa é a minha grande questão. Talvez tu tenhas visto um padrão de filme. E talvez eu esteja a tentar seguir outro padrão mas que não me encaixa minimamente. E eu tento encaixar. Morar longe? Lutar por cinema? Há tanto tempo que não conheço ninguém interessante, que puxe por mim, que me instigue. Só os livros e os filmes. Que são bons. Há muito que não vou ao cinema!

Na Bahia li três livros. Um deles chama-se "Carta a D. - uma história de amor". É um relato romântico e não lamechas de uma história de amor de mais de 50 anos. Ele era um escritor, filósofo, historiador judeu que não tinha dinheiro nenhum. Apaixonou-se e casou com Dorine. A sua mulher. As páginas, em algum momento, quase que me pareciam como um pedido de desculpas dele a ela. Muito por a ter subjugado sem perceber, ou mesmo, sem querer. No entanto, ela manteve-se do lado dele, na casa de ambos, mesmo com muita dificuldade, por exemplo ele não falar com ela por três dias consecutivos. No entanto, ele não conseguia viver sem ela. É amor? Será? O que é? Só não quero que a mim me destruam a ideia de amor que eu tenho. Isso eu não vou deixar. Porque é bonito, porque é possível. E eu sei que sim. O livro lembrou-me muito o filme do Haneke. Amor.

Procurei uma imagem do livro para ilustrar este post e descobri também uma imagem de André e Dorin novos e depois mais velhos. (tão bonitos eles velhos. tão bonitos!) Partilho contigo aqui:











O outro livro que li foi "Filomena Firmeza" do Patrick Modiano que ganhou o prémio Nobel da Lietratura. (já leste alguma coisa dele?) Eu gostei muito. Um retrato muito bonito sobre memórias. Memórias de uma mulher, já adulta, de quando era criança. Morou em França com o pai durante uns anos enquanto a mãe estava nos Estados Unidos. Ela relembra pequenos detalhes que viveu com o pai. Coisas que faziam juntos, coisas que este lhe dizia. E é interessante como as coisas, aos olhos de uma criança, sempre são mais bonitas, mesmo que relembradas, anos depois, nunca deixam de perder certa beleza.

(...)

Tinhas-me dito que ontem o dia ia ser daqueles mais pesados... espero que tenha passado o mais rápido e melhor possível. Espero que hoje seja um dia tranquilo. Com festinhas na cabeça, ternura, abraços e silêncio de calma.

(...)

Começar os dias cedo é bom. Aprendi isso. Estou bem. Estou tranquila aqui, sozinha em casa, a escrever-te. Em silêncio. Com as nuvens à esquerda, a madeira virgem por baixo das mãos, a camomila da pele e o cabelo já quase seco :)


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