Hoje cabe-me uma tarefa difícil. Muito difícil, até. Hoje proponho-me descrever aqui algo indescritível. Um dia sem explicação. Um dia que teve de tudo, nos seus pólos mais opostos.
Era uma segunda-feira que amanhecia como os dias anteriores: um sol forte num céu muito azul. Poucas nuvens. Tudo estava bem programado. O bloco que escolhemos ir chamava-se "Filhos de Tcha Tcha". Às 12h uns amigos iam-nos encontrar em casa e às 13:30 pegaríamos um ônibus que nos deixaria no local onde seria esse bloco. Passei a manhã a colar penas amarelas e vermelhas a um atacador de ténis para poder colocá-las na cabeça. A meio do processo duvidei umas três vezes se ia dar certo. Mas deu. Lá consegui pôr as famosas penas de pé!
Já prontos, rumámos à paragem de ônibus e quando chegámos deparámo-nos com uma fila desmedida de pessoas para um único autocarro. (atenção: este autocarro era um autocarro especial, chamado de "Tarifa Zero", que nos levaria ao destino final por zero centavos!). Percebemos logo que não haveria lugar para nós e decidimos ir de ônibus comum. Fomos apertadíssimos, num grande calor, até à Estação São Benedito. Quando chegámos ficámos um pouco à toa em relação ao que fazer... não sabíamos bem para onde ir, até que, do nada... surge esse ônibus Tarifa Zero vazio... só para nós!! Estranhámos mas lá entrámos e fomos.
Um calor de mais de 35 graus. O Augusto estava mascarado de jardineiro, o que fez com que levasse consigo um borrifador. Todos deliravam pois um pouco de água, naquele lugar, era uma gota no deserto.
Um calor de mais de 35 graus. O Augusto estava mascarado de jardineiro, o que fez com que levasse consigo um borrifador. Todos deliravam pois um pouco de água, naquele lugar, era uma gota no deserto.
Estávamos numa ocupação. Ocupação Isidoro. Longe do centro de BH e que, de há uns tempos para cá, tem vindo a ter vários conflitos sobre o pertencimento das suas terras. Ainda há uns meses queriam desocupar todas as casas que os moradores construíram e onde moram. Tudo por várias questões, maioritariamente económicas.
Não existe alcatrão. É no meio do mato. Só terra batida e casas, a maioria de tábuas, mas algumas com tijolos.
Não existe alcatrão. É no meio do mato. Só terra batida e casas, a maioria de tábuas, mas algumas com tijolos.
O calor continuava e o bloco começou. Os tambores rufavam, as pessoas cantavam e dançavam. E o suor seguia correndo pelos corpos. O pó subia até ao nariz com os passos que dávamos enquanto avançávamos. Cumprimentávamos um ou outro morador. Raros eram os que entravam no bloco e seguiam connosco dançando e cantando. A maioria olhava e sorria (normalmente sorrisos muito ternos). Alguns pegavam em copinhos de água e davam-nos para nos refrescarmos. Mas a proveniência da água era meio duvidosa e muitos hesitavam em tomá-la.
Subimos ladeiras, descemos, e, cada vez mais andávamos não sabíamos muito bem para onde. Mas seguíamos. As músicas não fogem muito ao mesmo. Desde "Mamãe eu quero mamar... dá-me a chupeta para o bebé não chorar" até "Há quem diga que cachaça é água... cachaça não é água não...!"
Continuávamos subindo... dançando... indo com uma energia de grupo que é bem difícil de descrever para quem nunca passou por ela... Até que (vindas não se sabe de onde) surgem umas grandes nuvens no céu! Ao início foi um alívio... queríamos era uma sombra. Corria um fresquinho e era refrescante. Mas elas foram-se tornando cada vez mais imponentes e, de repente, cobriam todo o céu. Não se via mais o azul. O céu era agora branco e nós não sabíamos nem onde estávamos e muito menos para onde íamos. O presságio daquelas nuvens concretizou-se e ao fim de pouco tempo começavam as primeiras gotas de chuva. Uma chuva fria. Que ia engrossando a cada passo que dávamos para o desconhecido.
A máscara do Augusto tornava-se agora irónica. O frio tinha-se instalado junto de uma tempestade sem limites, carregada de trovões muito assustadores. A minha falta de conhecimento sobre o que estava a acontecer deixou-me muito assustada. É melhor estar ao pé de uma árvore? Perto das pessoas? E quanto tempo falta para chegar? Mas chegar onde?
As penas que tinha demorado uma manhã a fazer estavam agora todas molhadas e murchas na minha cabeça. Num gesto brusco e já com lágrimas na cara, tirei-as da cabeça e gritei "Isto é Brasil demais para mim!!"
O pó que nos entrava no nariz era agora uma maré de lama com mais de 50 cm de profundidade. A dificuldade em andar era muita. Mas o pior era o frio e o medo dos trovões.
Fui ter com o Augusto num grande desespero. Não havia muito que ele pudesse fazer; apesar de eu, às vezes achar que sim, ele ainda não tinha forças para chegar com a mão ao céu e parar os relâmpagos. Começámos os dois a andar mais rápido para nos irmos embora. Mas percebemos que não sabíamos muito bem o caminho. Olhámos para trás e vimos umas 30 a 40 pessoas ainda a tocar e a cantar à chuva. Olhámo-nos e decidimos no olhar que seria melhor irmos junto com aquele grupo e tentar ao máximo saltar para aquecer. A ideia do Carnaval é de grupo e ali, mais do que nunca, isso fazia todo o sentido. E assim seguimos no meio da lama com os tambores que, sempre que levavam com uma batida, soltavam milhares de gotas. Continuámos assim com frio, água, trovões e lama não sei precisar por mais quanto tempo... mas uma meia hora foi com certeza.
Até que a chuva começou a abrandar. No meio do caminho (!!!) encontrámos todos um pequeno bar feito de madeira e com uma lâmpada a iluminar o centro de uma mesa tosca. A música não parou por um minuto (e isso é impressionante). Todos cantaram o tempo inteiro sem parar! Bebeu-se cachaça e conhaque para aquecer a alma e a pele. O sol, invisível, ia-se pondo.
No entanto, a intrigava-me como iríamos sair daquele lugar misterioso onde nos encontrávamos. E o pior é que não poderíamos decidir que queríamos ir embora a qualquer momento. Tínhamos de esperar pelo grupo. E quando essa decisão conjunta aconteceu, sair daquele bar, era já de noite.
Andámos uns 100 metros e deparámo-nos com um pequeno palco de madeira, com uma cantora de funk (vinda não se sabe de onde). Ela cantava e rebolava o seu grande rabo. Tinha uns cabelos enormes e cantava maravilhosamente. A comunidade estava lá a dançar e outras pessoas do bloco também. Aqui sim todos estavam misturados e isso foi bom de sentir. Eu olhei para aquilo e pensei "eu vou ter de ficar aqui a sentir isto por mais um tempo". Mas sabia que, dentro de mim, não o conseguiria fazer se não soubesse como sair daquele lugar. E a primeira coisa que fiz foi falar com o grupo: "se querem ficar aqui.... eu também quero... mas precisamos de saber antes de mais nada como sair daqui!". Quando vi aquele palco, ou seja, mais uma parada para a "não saída" daquele lugar, automaticamente veio-me aqueles romances kafkianos quase circulares onde não saímos do mesmo lugar nunca.
No entanto, a intrigava-me como iríamos sair daquele lugar misterioso onde nos encontrávamos. E o pior é que não poderíamos decidir que queríamos ir embora a qualquer momento. Tínhamos de esperar pelo grupo. E quando essa decisão conjunta aconteceu, sair daquele bar, era já de noite.
Andámos uns 100 metros e deparámo-nos com um pequeno palco de madeira, com uma cantora de funk (vinda não se sabe de onde). Ela cantava e rebolava o seu grande rabo. Tinha uns cabelos enormes e cantava maravilhosamente. A comunidade estava lá a dançar e outras pessoas do bloco também. Aqui sim todos estavam misturados e isso foi bom de sentir. Eu olhei para aquilo e pensei "eu vou ter de ficar aqui a sentir isto por mais um tempo". Mas sabia que, dentro de mim, não o conseguiria fazer se não soubesse como sair daquele lugar. E a primeira coisa que fiz foi falar com o grupo: "se querem ficar aqui.... eu também quero... mas precisamos de saber antes de mais nada como sair daqui!". Quando vi aquele palco, ou seja, mais uma parada para a "não saída" daquele lugar, automaticamente veio-me aqueles romances kafkianos quase circulares onde não saímos do mesmo lugar nunca.
Descobrimos que havia um autocarro a uns 300 metros... isso aliviou-me e conseguimos aproveitar aquele concerto surreal por mais umas horas. O céu estava agora limpo e não choveria com certeza mais naquele dia.
De facto às 23h estava um autocarro urbano que nos deixou na tal Estação São Benedito, onde depois apanhámos outro para ir para casa.
No final das contas... mais do que pensar o frio, o calor, o pó, a lama ou os trovões que passei... acho que o que fica mais forte na memória e na alma foi o pensar nas pessoas que vivem ali. E que lutam por aquele lugar. As pessoas que têm aquilo como o seu descanso, o seu abrigo, a sua paz.
É o pensar quantas dessas pessoas dessas nos cruzamos diariamente, conversamos pontualmente e nem sabemos que diariamente fazem, nas piores condições, o percurso que fizemos nós em um dia.
É muito estranho pensar e sentir tudo isto. Principalmente, é mais um dia para perceber que o auto controle é algo muito importante e principalmente perceber coisas que não têm como ser percebidas. É uma experiência em todos os sentidos da palavra. E esta é uma muito inesquecível.
É o pensar quantas dessas pessoas dessas nos cruzamos diariamente, conversamos pontualmente e nem sabemos que diariamente fazem, nas piores condições, o percurso que fizemos nós em um dia.
É muito estranho pensar e sentir tudo isto. Principalmente, é mais um dia para perceber que o auto controle é algo muito importante e principalmente perceber coisas que não têm como ser percebidas. É uma experiência em todos os sentidos da palavra. E esta é uma muito inesquecível.


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