Querida mãe.
Hoje foi o dia em que me enviaste uma foto tua por mail. Uma foto que transpira Verão e transpira um pouco mais de calma.
É quase enlouquecedor ver essa foto e pensar no mês de março ao mesmo tempo.
O coração aperta ao pensar nos momentos de grande aflição que vivi. Junto de ti. Junto da tia.
A vida pega-nos, amachuca-nos, atira-nos a um canto esperando que o nosso papel se volte a moldar ao que era. Ao que éramos antes. E não somos mais iguais.
Somos mais frágeis. Mais fortes. Mais atentos e mais aluados.
Somos muito mais depois de sermos despidos e confrontados com a película frágil que finge que nos protege.
Vejo-te ainda mais bonita e isso é o que me deixa mais feliz.
Como estás depois de tudo isto?
Já é depois? Para ti ainda é agora?
Eu fiquei mais frágil, com maior distância... e nem sabia que isso era possível. Uma distância aumentar num coração.
Queria, depois de tudo o que passámos, viver o Verão contigo.
As cores, os fatos de banho, o sol na pele e a água no corpo.
O Verão que retorna com sua beleza. Verão maior ainda. Beleza maior ainda.
Saudades das tuas mãos morenas, que terminam com unhas curtas e limpas. Que aquecem como a película que é a nossa pele.
Um abraço pensando no retorno ao nosso encontro logo.
Sempre assim.
Escritos de uma filha que mora no Brasil para uma mãe que mora em Portugal, num período difícil das suas vidas.
domingo, 7 de junho de 2015
segunda-feira, 13 de abril de 2015
13 de Abril
Recomeço-te este blog depois de um mês. Um mês perto de ti, mãe. Intenso, forte, como nunca. Acho que como nunca o vimos ou sequer pensámos sentir.
Estou ainda no avião, a passar por Fortaleza, a chegar ao Brasil.
E neste recomeço quero falar de ti. A minha mãe.
Eu conheço-te bem mãe. Muito bem. Mas neste mês conheci-te mais ainda. Essa possibilidade não me tinha passado nunca pela cabeça, mas hoje reconheço essa realidade. Conheci-te ainda mais.
Disse-te várias vezes, sempre que te toquei as mãos, como gostava delas. E elas estiveram-me sempre na memória, em todos os meus escritos. E o bom da memória é quando a temos de volta de forma real. E eu tive tantas vezes as tuas mãos nas minhas, nestes dias. E se queres que te diga é isso que levo maior dentro de mim. As nossas mãos a tocarem-se.
O corpo, como sabes foi difícil... à frente, atrás, de lado... tudo estava magoado no teu corpo, mãe. Tão frágil que estavas por fora.... Mas as mãos não. As mãos eram as mesmas. E levo-as comigo por este tempo em que estaremos separadas de novo. Na memória e no corpo. Físico.
(...)
Toquei à campainha... Estava nervosa. Parecia que ia conhecer alguém novo e não abraçar aquela que melhor conheço. Estava nervosa. E abres-me. Mais bonita do que alguma vez imaginei, de camisola azul esverdeado macia sorris-me, a medo também... Sorris assumindo-te como uma nova pessoa. Eu eu não sabia já o que fazer, o que pensar... Deixei-me ir pelo teu toque quente... Era a única coisa que podia fazer e no fundo o caminho que me seguiria a perceber tudo o que se estava a passar. Aos pouco tive de esquecer a minha negação em que as coisas estavam diferentes. Em que as coisas eram diferentes. Aos poucos tive de aceitar que eram. Que eu ia cuidar de ti. E agora era assim. Eu cuidaria de ti. E fui-me habituando ao meu novo papel e apaixonei-me por ele e por ti, mais ainda.
Foi muito bom, mãe. Muito bom. E quanto tudo isto terminar, seremos mais fortes, mais unidas. Ainda mais nós. Atravessei o Atlântico mas fiquei aí. Sinto de verdade isto. Sinto que aqui no Brasil sou apenas um corpo que vagueia pelas ruas e faz o que tem de ser feito. Sinto que tudo eu. Sim, tudo eu, ficou aí. Voando pelos ares de Lisboa a sorrir-te quando vais aos Lusíadas e atravessando os ventos da Escravilheira abraçando-te quando adormeces na cadeira cor de laranja.
Toda a minha ternura está aí. Ficou aí. E isso eu não posso mudar. Isso sim é mais forte do que eu. Não sentes?
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
domingo, 22 de fevereiro de 2015
22 de Fevereiro
De repente estás em surdina.
De repente não tens o que dizer aos outros.
De repente és só tu, num silêncio absurdo, que chegou com uma tranquilidade de proveniência esquecida.
Exercício de mim.
Exercício de esquecimento atrás.
Atrás de mim, a vida.
Caminhas pela Alagoas, todos os dias, 20 minutos até chegares ao posto. Vês o restaurante com a promoção do dia (normalmente sempre frango, seja com quiabo ou xadrez), segues e tens a "Papaia" com o melhor açaí recomendado pela revista VejaBH. O restaurante de massas, mais à frente, é chique, elegante e tem sempre dois homens mais velhos sentados, almoçando ou jantando (dependendo se vais ou voltas), falando de negócios. São sócios, parceiros, empreendedores. Homens com medos. Com medo. Com mulheres. Sem cabelo e com gravata. Sorriem pouco. Pouco sei. A montra do restaurante são potes de vidro com massas de diferentes cores. Bonito. Pouco ousado. Esperado.
E o que espanta é a casa de lençol que uma família construiu mais à frente. Os lençóis fazem as divisões entre os cómodos, mas o chão é aquele que todos pisam para seguir caminho para lugar algum. Têm discussões de família normais, filhos, e casa de banho pública que é privada para eles. Uma das paredes não é lençol. É a loja de um edifício para alugar. Não têm cães e não sabes se saem para trabalhar.
Antes de passar por tudo isso, existem duas mulheres com pouco mais de meia idade que são montra da rua, e estão em frente aos seus computadores. Têm cara de quem pouco farão nas duras horas diárias que lhes cabem. Só há dois tons naquela montra: branco e cinza. Até os cabelo pintados de amarelo louro, das duas, são cinzentos. Os lábios são finos. A secretária onde estão sentadas é cercada de pequenas paredes de plástico que lhes dá a ideia errada de individualidade própria. Era para ser um open space, mas pequeno. Mínimo. Menor que pequeno. E as duas estão lá, em luz branca, fria como tudo o resto.
E no final, o teu silêncio para os outros vem da repetição do gesto. A única palavra é sobre eles que estão ali na repetição do dia como o sol: o frango, a papaia, os homens de negócios, a família de lençol, as duas mulheres do escritório.
E basta isso para uma tranquilidade sem sentido e sem lugar de nascimento. Uma tranquilidade que te deixa intranquila. Sempre a inquietação.
Volta o exercício do esquecer, do amar e do ser.
Volta a saudade do que já não se é e de facto nunca se foi.
Voltas tu, à agora minha cabeça, que és a minha única verdade.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
19 de Fevereiro
Querida mãe,
hoje, como ontem, partilho contigo um poema.
Desta vez sobre o amor.
O amor dos amantes.
O amor que quando lemos nos parece tão certeiro, tão fácil. Mas na vida real se mostra tão raro.
Tão único. Tão escondido. Tão solitário.
/////////
hoje, como ontem, partilho contigo um poema.
Desta vez sobre o amor.
O amor dos amantes.
O amor que quando lemos nos parece tão certeiro, tão fácil. Mas na vida real se mostra tão raro.
Tão único. Tão escondido. Tão solitário.
/////////
a função do amor é fabricar desconhecimento
(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar
e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se
importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
─ o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)
que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver
(que riem e choram) que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; cada parte permanece quieta:
e.e. cummings
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
18 de Fevereiro
ar livre
enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
e a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
os olhos verdes no mar.
o corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
e a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
os olhos verdes no mar.
o corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!
edmundo bettencourt
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
17 de Fevereiro
Depois do dia de ontem... foi muito difícil ter coragem para sair da cama... Estávamos os dois exaustos e tivemos um dia que soube a domingo. Daqueles domingos que te contei há alguns dias atrás.
A casa nova tem muita luz. E isso é maravilhoso. É de novo um apartamento e isso faz-me sentir um pouco mais "em casa".
A casa nova tem muita luz. E isso é maravilhoso. É de novo um apartamento e isso faz-me sentir um pouco mais "em casa".
Como já havia te dito é num andar muito alto: vigésimo segundo. O elevador demora exatamente 1 minuto e 5 segundos a subir desde o térreo até lá a cima. A mudança foi rápida. Alguns objetos ainda estão na outra casa. Tudo está entulhado, ainda. Nada está no lugar final. Faz parte. É bom.
O facto de ser muito alto, ali naquele lugar, permite-nos ter uma vista muito bonita sobre a cidade. O primeiro acordar ali foi inesquecível:
O facto de ser muito alto, ali naquele lugar, permite-nos ter uma vista muito bonita sobre a cidade. O primeiro acordar ali foi inesquecível:
Eu estava deitada e abri os olhos. Vi um céu com várias tonalidades. Lindo. Fiquei a namorar aquele céu sozinha por uns tempos até que partilhei:
- Olha o céu...
E ele responde-me
E ele responde-me
Quando levantei o corpo deparo-me, ao fundo, com umas montanhas negras. Escuras. Uma serra. E, atrás delas, um laranja fortíssimo, carregado. A imagem era tão bonita e marcou-me tanto que me assaltou a memória várias vezes ao longo desse dia. Foi uma sensação nova ver aquilo ali, tão perto. Tão longe. Tão alto.
///
Os apartamentos... o mudar de casa... Sempre me lembram um livro que o pai me leu quando era miúda: "Lote 12 - Segundo Frente".
Parece-me que aquela menina que a Alice Vieira fez narrar no "Rosa minha irmã Rosa", no "Chocolate à Chuva" e neste "Lote 12 - Segundo Frente" nunca me abandonou. Está aqui ainda. As estranhezas de criança ainda são possíveis de as sentir. O olhar inocente ainda é capaz de correr no meu corpo alegremente. É a memória? Não sei... porque chega a ser algo físico. Definitivamente algo físico. Dentro de mim.
Parece-me que aquela menina que a Alice Vieira fez narrar no "Rosa minha irmã Rosa", no "Chocolate à Chuva" e neste "Lote 12 - Segundo Frente" nunca me abandonou. Está aqui ainda. As estranhezas de criança ainda são possíveis de as sentir. O olhar inocente ainda é capaz de correr no meu corpo alegremente. É a memória? Não sei... porque chega a ser algo físico. Definitivamente algo físico. Dentro de mim.
Passo a mão pela testa, meu Deus, a barafunda que por aqui vai, este não saber de coisa nenhuma, querer um lenço, uma esferográfica, um chinelo, e tudo estar nos sítios mais inacreditáveis, levantar a mão para acender um interruptor do quarto e a mão andar a nadar pela parede, ora mais para cinema, ora mais para baixo, ora mais para a esquerda, ora mais para a direita, e de repente dar com o interruptor mesmo diante dos nossos olhos só que na parede do outro lado.
- Os interruptores são sempre do lado direito! Que casa é esta que tem os interruptores na parede do lado esquerdo? Isto foi feito para canhotos ou quê?
Perguntas, perguntas, perguntas.
Ninguém me responde, eu sei. Nem eu estou à espera da resposta deles, que sabem tanto desta casa como eu. Desta casa onde tudo me parece virado do avesso, disparatado, feito com a única finalidade de me irritar. Desta casa para onde viemos vivier. História um bocado complicada, segundo percebi.
Uma noite a mãe chamou-me e disse:
- Vamos mudar de casa.
Assim de repente, como se me estivesse a dizer a coisa mais natural do mundo. Com a mesma simplicidade com que me costuma dizer " vamos à Baixa", ou "vai arrumar o teu quarto".
- Mudar de casa?
Acho que devo ter feito uns olhos enormes porque o meu pai, na brincadeira com a minha irmã Rosa, pareceu ficar de repente muito divertido e perguntou:
- Não sabes o que é mudar de casa? É pegar na tralha toda que temos aqui dentro e levá-la para outro sítio. Pronto.
(...)
Passei as últimas seis semanas a apalpar as paredes, à procura de interruptores que não estavam lá. A ouvir silêncios, à procura de vozes que não ecoarão nunca nestes muros. A tropeçar nas coisas mais inusitadas, a procurar coisas que só aparecem quando já deixaram de ser precisas. A destralhar. Sinto-me a brincar às casinhas, moro numa casa que "ainda não cheira a mim", demoro a tomar possessão deste espaço, tão grande e tão pequeno, que só agora me vai conhecendo as lágrimas e as gargalhadas. Projecto o meu futuro aqui. É o presente que me está a custar viver."
- Os interruptores são sempre do lado direito! Que casa é esta que tem os interruptores na parede do lado esquerdo? Isto foi feito para canhotos ou quê?
Perguntas, perguntas, perguntas.
Ninguém me responde, eu sei. Nem eu estou à espera da resposta deles, que sabem tanto desta casa como eu. Desta casa onde tudo me parece virado do avesso, disparatado, feito com a única finalidade de me irritar. Desta casa para onde viemos vivier. História um bocado complicada, segundo percebi.
Uma noite a mãe chamou-me e disse:
- Vamos mudar de casa.
Assim de repente, como se me estivesse a dizer a coisa mais natural do mundo. Com a mesma simplicidade com que me costuma dizer " vamos à Baixa", ou "vai arrumar o teu quarto".
- Mudar de casa?
Acho que devo ter feito uns olhos enormes porque o meu pai, na brincadeira com a minha irmã Rosa, pareceu ficar de repente muito divertido e perguntou:
- Não sabes o que é mudar de casa? É pegar na tralha toda que temos aqui dentro e levá-la para outro sítio. Pronto.
(...)
Passei as últimas seis semanas a apalpar as paredes, à procura de interruptores que não estavam lá. A ouvir silêncios, à procura de vozes que não ecoarão nunca nestes muros. A tropeçar nas coisas mais inusitadas, a procurar coisas que só aparecem quando já deixaram de ser precisas. A destralhar. Sinto-me a brincar às casinhas, moro numa casa que "ainda não cheira a mim", demoro a tomar possessão deste espaço, tão grande e tão pequeno, que só agora me vai conhecendo as lágrimas e as gargalhadas. Projecto o meu futuro aqui. É o presente que me está a custar viver."
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