Escritos de uma filha que mora no Brasil para uma mãe que mora em Portugal, num período difícil das suas vidas.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
domingo, 22 de fevereiro de 2015
22 de Fevereiro
De repente estás em surdina.
De repente não tens o que dizer aos outros.
De repente és só tu, num silêncio absurdo, que chegou com uma tranquilidade de proveniência esquecida.
Exercício de mim.
Exercício de esquecimento atrás.
Atrás de mim, a vida.
Caminhas pela Alagoas, todos os dias, 20 minutos até chegares ao posto. Vês o restaurante com a promoção do dia (normalmente sempre frango, seja com quiabo ou xadrez), segues e tens a "Papaia" com o melhor açaí recomendado pela revista VejaBH. O restaurante de massas, mais à frente, é chique, elegante e tem sempre dois homens mais velhos sentados, almoçando ou jantando (dependendo se vais ou voltas), falando de negócios. São sócios, parceiros, empreendedores. Homens com medos. Com medo. Com mulheres. Sem cabelo e com gravata. Sorriem pouco. Pouco sei. A montra do restaurante são potes de vidro com massas de diferentes cores. Bonito. Pouco ousado. Esperado.
E o que espanta é a casa de lençol que uma família construiu mais à frente. Os lençóis fazem as divisões entre os cómodos, mas o chão é aquele que todos pisam para seguir caminho para lugar algum. Têm discussões de família normais, filhos, e casa de banho pública que é privada para eles. Uma das paredes não é lençol. É a loja de um edifício para alugar. Não têm cães e não sabes se saem para trabalhar.
Antes de passar por tudo isso, existem duas mulheres com pouco mais de meia idade que são montra da rua, e estão em frente aos seus computadores. Têm cara de quem pouco farão nas duras horas diárias que lhes cabem. Só há dois tons naquela montra: branco e cinza. Até os cabelo pintados de amarelo louro, das duas, são cinzentos. Os lábios são finos. A secretária onde estão sentadas é cercada de pequenas paredes de plástico que lhes dá a ideia errada de individualidade própria. Era para ser um open space, mas pequeno. Mínimo. Menor que pequeno. E as duas estão lá, em luz branca, fria como tudo o resto.
E no final, o teu silêncio para os outros vem da repetição do gesto. A única palavra é sobre eles que estão ali na repetição do dia como o sol: o frango, a papaia, os homens de negócios, a família de lençol, as duas mulheres do escritório.
E basta isso para uma tranquilidade sem sentido e sem lugar de nascimento. Uma tranquilidade que te deixa intranquila. Sempre a inquietação.
Volta o exercício do esquecer, do amar e do ser.
Volta a saudade do que já não se é e de facto nunca se foi.
Voltas tu, à agora minha cabeça, que és a minha única verdade.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
19 de Fevereiro
Querida mãe,
hoje, como ontem, partilho contigo um poema.
Desta vez sobre o amor.
O amor dos amantes.
O amor que quando lemos nos parece tão certeiro, tão fácil. Mas na vida real se mostra tão raro.
Tão único. Tão escondido. Tão solitário.
/////////
hoje, como ontem, partilho contigo um poema.
Desta vez sobre o amor.
O amor dos amantes.
O amor que quando lemos nos parece tão certeiro, tão fácil. Mas na vida real se mostra tão raro.
Tão único. Tão escondido. Tão solitário.
/////////
a função do amor é fabricar desconhecimento
(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar
e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se
importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
─ o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)
que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver
(que riem e choram) que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; cada parte permanece quieta:
e.e. cummings
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
18 de Fevereiro
ar livre
enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
e a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
os olhos verdes no mar.
o corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
e a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
os olhos verdes no mar.
o corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!
edmundo bettencourt
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
17 de Fevereiro
Depois do dia de ontem... foi muito difícil ter coragem para sair da cama... Estávamos os dois exaustos e tivemos um dia que soube a domingo. Daqueles domingos que te contei há alguns dias atrás.
A casa nova tem muita luz. E isso é maravilhoso. É de novo um apartamento e isso faz-me sentir um pouco mais "em casa".
A casa nova tem muita luz. E isso é maravilhoso. É de novo um apartamento e isso faz-me sentir um pouco mais "em casa".
Como já havia te dito é num andar muito alto: vigésimo segundo. O elevador demora exatamente 1 minuto e 5 segundos a subir desde o térreo até lá a cima. A mudança foi rápida. Alguns objetos ainda estão na outra casa. Tudo está entulhado, ainda. Nada está no lugar final. Faz parte. É bom.
O facto de ser muito alto, ali naquele lugar, permite-nos ter uma vista muito bonita sobre a cidade. O primeiro acordar ali foi inesquecível:
O facto de ser muito alto, ali naquele lugar, permite-nos ter uma vista muito bonita sobre a cidade. O primeiro acordar ali foi inesquecível:
Eu estava deitada e abri os olhos. Vi um céu com várias tonalidades. Lindo. Fiquei a namorar aquele céu sozinha por uns tempos até que partilhei:
- Olha o céu...
E ele responde-me
E ele responde-me
Quando levantei o corpo deparo-me, ao fundo, com umas montanhas negras. Escuras. Uma serra. E, atrás delas, um laranja fortíssimo, carregado. A imagem era tão bonita e marcou-me tanto que me assaltou a memória várias vezes ao longo desse dia. Foi uma sensação nova ver aquilo ali, tão perto. Tão longe. Tão alto.
///
Os apartamentos... o mudar de casa... Sempre me lembram um livro que o pai me leu quando era miúda: "Lote 12 - Segundo Frente".
Parece-me que aquela menina que a Alice Vieira fez narrar no "Rosa minha irmã Rosa", no "Chocolate à Chuva" e neste "Lote 12 - Segundo Frente" nunca me abandonou. Está aqui ainda. As estranhezas de criança ainda são possíveis de as sentir. O olhar inocente ainda é capaz de correr no meu corpo alegremente. É a memória? Não sei... porque chega a ser algo físico. Definitivamente algo físico. Dentro de mim.
Parece-me que aquela menina que a Alice Vieira fez narrar no "Rosa minha irmã Rosa", no "Chocolate à Chuva" e neste "Lote 12 - Segundo Frente" nunca me abandonou. Está aqui ainda. As estranhezas de criança ainda são possíveis de as sentir. O olhar inocente ainda é capaz de correr no meu corpo alegremente. É a memória? Não sei... porque chega a ser algo físico. Definitivamente algo físico. Dentro de mim.
Passo a mão pela testa, meu Deus, a barafunda que por aqui vai, este não saber de coisa nenhuma, querer um lenço, uma esferográfica, um chinelo, e tudo estar nos sítios mais inacreditáveis, levantar a mão para acender um interruptor do quarto e a mão andar a nadar pela parede, ora mais para cinema, ora mais para baixo, ora mais para a esquerda, ora mais para a direita, e de repente dar com o interruptor mesmo diante dos nossos olhos só que na parede do outro lado.
- Os interruptores são sempre do lado direito! Que casa é esta que tem os interruptores na parede do lado esquerdo? Isto foi feito para canhotos ou quê?
Perguntas, perguntas, perguntas.
Ninguém me responde, eu sei. Nem eu estou à espera da resposta deles, que sabem tanto desta casa como eu. Desta casa onde tudo me parece virado do avesso, disparatado, feito com a única finalidade de me irritar. Desta casa para onde viemos vivier. História um bocado complicada, segundo percebi.
Uma noite a mãe chamou-me e disse:
- Vamos mudar de casa.
Assim de repente, como se me estivesse a dizer a coisa mais natural do mundo. Com a mesma simplicidade com que me costuma dizer " vamos à Baixa", ou "vai arrumar o teu quarto".
- Mudar de casa?
Acho que devo ter feito uns olhos enormes porque o meu pai, na brincadeira com a minha irmã Rosa, pareceu ficar de repente muito divertido e perguntou:
- Não sabes o que é mudar de casa? É pegar na tralha toda que temos aqui dentro e levá-la para outro sítio. Pronto.
(...)
Passei as últimas seis semanas a apalpar as paredes, à procura de interruptores que não estavam lá. A ouvir silêncios, à procura de vozes que não ecoarão nunca nestes muros. A tropeçar nas coisas mais inusitadas, a procurar coisas que só aparecem quando já deixaram de ser precisas. A destralhar. Sinto-me a brincar às casinhas, moro numa casa que "ainda não cheira a mim", demoro a tomar possessão deste espaço, tão grande e tão pequeno, que só agora me vai conhecendo as lágrimas e as gargalhadas. Projecto o meu futuro aqui. É o presente que me está a custar viver."
- Os interruptores são sempre do lado direito! Que casa é esta que tem os interruptores na parede do lado esquerdo? Isto foi feito para canhotos ou quê?
Perguntas, perguntas, perguntas.
Ninguém me responde, eu sei. Nem eu estou à espera da resposta deles, que sabem tanto desta casa como eu. Desta casa onde tudo me parece virado do avesso, disparatado, feito com a única finalidade de me irritar. Desta casa para onde viemos vivier. História um bocado complicada, segundo percebi.
Uma noite a mãe chamou-me e disse:
- Vamos mudar de casa.
Assim de repente, como se me estivesse a dizer a coisa mais natural do mundo. Com a mesma simplicidade com que me costuma dizer " vamos à Baixa", ou "vai arrumar o teu quarto".
- Mudar de casa?
Acho que devo ter feito uns olhos enormes porque o meu pai, na brincadeira com a minha irmã Rosa, pareceu ficar de repente muito divertido e perguntou:
- Não sabes o que é mudar de casa? É pegar na tralha toda que temos aqui dentro e levá-la para outro sítio. Pronto.
(...)
Passei as últimas seis semanas a apalpar as paredes, à procura de interruptores que não estavam lá. A ouvir silêncios, à procura de vozes que não ecoarão nunca nestes muros. A tropeçar nas coisas mais inusitadas, a procurar coisas que só aparecem quando já deixaram de ser precisas. A destralhar. Sinto-me a brincar às casinhas, moro numa casa que "ainda não cheira a mim", demoro a tomar possessão deste espaço, tão grande e tão pequeno, que só agora me vai conhecendo as lágrimas e as gargalhadas. Projecto o meu futuro aqui. É o presente que me está a custar viver."
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
16 de Fevereiro
Hoje cabe-me uma tarefa difícil. Muito difícil, até. Hoje proponho-me descrever aqui algo indescritível. Um dia sem explicação. Um dia que teve de tudo, nos seus pólos mais opostos.
Era uma segunda-feira que amanhecia como os dias anteriores: um sol forte num céu muito azul. Poucas nuvens. Tudo estava bem programado. O bloco que escolhemos ir chamava-se "Filhos de Tcha Tcha". Às 12h uns amigos iam-nos encontrar em casa e às 13:30 pegaríamos um ônibus que nos deixaria no local onde seria esse bloco. Passei a manhã a colar penas amarelas e vermelhas a um atacador de ténis para poder colocá-las na cabeça. A meio do processo duvidei umas três vezes se ia dar certo. Mas deu. Lá consegui pôr as famosas penas de pé!
Já prontos, rumámos à paragem de ônibus e quando chegámos deparámo-nos com uma fila desmedida de pessoas para um único autocarro. (atenção: este autocarro era um autocarro especial, chamado de "Tarifa Zero", que nos levaria ao destino final por zero centavos!). Percebemos logo que não haveria lugar para nós e decidimos ir de ônibus comum. Fomos apertadíssimos, num grande calor, até à Estação São Benedito. Quando chegámos ficámos um pouco à toa em relação ao que fazer... não sabíamos bem para onde ir, até que, do nada... surge esse ônibus Tarifa Zero vazio... só para nós!! Estranhámos mas lá entrámos e fomos.
Um calor de mais de 35 graus. O Augusto estava mascarado de jardineiro, o que fez com que levasse consigo um borrifador. Todos deliravam pois um pouco de água, naquele lugar, era uma gota no deserto.
Um calor de mais de 35 graus. O Augusto estava mascarado de jardineiro, o que fez com que levasse consigo um borrifador. Todos deliravam pois um pouco de água, naquele lugar, era uma gota no deserto.
Estávamos numa ocupação. Ocupação Isidoro. Longe do centro de BH e que, de há uns tempos para cá, tem vindo a ter vários conflitos sobre o pertencimento das suas terras. Ainda há uns meses queriam desocupar todas as casas que os moradores construíram e onde moram. Tudo por várias questões, maioritariamente económicas.
Não existe alcatrão. É no meio do mato. Só terra batida e casas, a maioria de tábuas, mas algumas com tijolos.
Não existe alcatrão. É no meio do mato. Só terra batida e casas, a maioria de tábuas, mas algumas com tijolos.
O calor continuava e o bloco começou. Os tambores rufavam, as pessoas cantavam e dançavam. E o suor seguia correndo pelos corpos. O pó subia até ao nariz com os passos que dávamos enquanto avançávamos. Cumprimentávamos um ou outro morador. Raros eram os que entravam no bloco e seguiam connosco dançando e cantando. A maioria olhava e sorria (normalmente sorrisos muito ternos). Alguns pegavam em copinhos de água e davam-nos para nos refrescarmos. Mas a proveniência da água era meio duvidosa e muitos hesitavam em tomá-la.
Subimos ladeiras, descemos, e, cada vez mais andávamos não sabíamos muito bem para onde. Mas seguíamos. As músicas não fogem muito ao mesmo. Desde "Mamãe eu quero mamar... dá-me a chupeta para o bebé não chorar" até "Há quem diga que cachaça é água... cachaça não é água não...!"
Continuávamos subindo... dançando... indo com uma energia de grupo que é bem difícil de descrever para quem nunca passou por ela... Até que (vindas não se sabe de onde) surgem umas grandes nuvens no céu! Ao início foi um alívio... queríamos era uma sombra. Corria um fresquinho e era refrescante. Mas elas foram-se tornando cada vez mais imponentes e, de repente, cobriam todo o céu. Não se via mais o azul. O céu era agora branco e nós não sabíamos nem onde estávamos e muito menos para onde íamos. O presságio daquelas nuvens concretizou-se e ao fim de pouco tempo começavam as primeiras gotas de chuva. Uma chuva fria. Que ia engrossando a cada passo que dávamos para o desconhecido.
A máscara do Augusto tornava-se agora irónica. O frio tinha-se instalado junto de uma tempestade sem limites, carregada de trovões muito assustadores. A minha falta de conhecimento sobre o que estava a acontecer deixou-me muito assustada. É melhor estar ao pé de uma árvore? Perto das pessoas? E quanto tempo falta para chegar? Mas chegar onde?
As penas que tinha demorado uma manhã a fazer estavam agora todas molhadas e murchas na minha cabeça. Num gesto brusco e já com lágrimas na cara, tirei-as da cabeça e gritei "Isto é Brasil demais para mim!!"
O pó que nos entrava no nariz era agora uma maré de lama com mais de 50 cm de profundidade. A dificuldade em andar era muita. Mas o pior era o frio e o medo dos trovões.
Fui ter com o Augusto num grande desespero. Não havia muito que ele pudesse fazer; apesar de eu, às vezes achar que sim, ele ainda não tinha forças para chegar com a mão ao céu e parar os relâmpagos. Começámos os dois a andar mais rápido para nos irmos embora. Mas percebemos que não sabíamos muito bem o caminho. Olhámos para trás e vimos umas 30 a 40 pessoas ainda a tocar e a cantar à chuva. Olhámo-nos e decidimos no olhar que seria melhor irmos junto com aquele grupo e tentar ao máximo saltar para aquecer. A ideia do Carnaval é de grupo e ali, mais do que nunca, isso fazia todo o sentido. E assim seguimos no meio da lama com os tambores que, sempre que levavam com uma batida, soltavam milhares de gotas. Continuámos assim com frio, água, trovões e lama não sei precisar por mais quanto tempo... mas uma meia hora foi com certeza.
Até que a chuva começou a abrandar. No meio do caminho (!!!) encontrámos todos um pequeno bar feito de madeira e com uma lâmpada a iluminar o centro de uma mesa tosca. A música não parou por um minuto (e isso é impressionante). Todos cantaram o tempo inteiro sem parar! Bebeu-se cachaça e conhaque para aquecer a alma e a pele. O sol, invisível, ia-se pondo.
No entanto, a intrigava-me como iríamos sair daquele lugar misterioso onde nos encontrávamos. E o pior é que não poderíamos decidir que queríamos ir embora a qualquer momento. Tínhamos de esperar pelo grupo. E quando essa decisão conjunta aconteceu, sair daquele bar, era já de noite.
Andámos uns 100 metros e deparámo-nos com um pequeno palco de madeira, com uma cantora de funk (vinda não se sabe de onde). Ela cantava e rebolava o seu grande rabo. Tinha uns cabelos enormes e cantava maravilhosamente. A comunidade estava lá a dançar e outras pessoas do bloco também. Aqui sim todos estavam misturados e isso foi bom de sentir. Eu olhei para aquilo e pensei "eu vou ter de ficar aqui a sentir isto por mais um tempo". Mas sabia que, dentro de mim, não o conseguiria fazer se não soubesse como sair daquele lugar. E a primeira coisa que fiz foi falar com o grupo: "se querem ficar aqui.... eu também quero... mas precisamos de saber antes de mais nada como sair daqui!". Quando vi aquele palco, ou seja, mais uma parada para a "não saída" daquele lugar, automaticamente veio-me aqueles romances kafkianos quase circulares onde não saímos do mesmo lugar nunca.
No entanto, a intrigava-me como iríamos sair daquele lugar misterioso onde nos encontrávamos. E o pior é que não poderíamos decidir que queríamos ir embora a qualquer momento. Tínhamos de esperar pelo grupo. E quando essa decisão conjunta aconteceu, sair daquele bar, era já de noite.
Andámos uns 100 metros e deparámo-nos com um pequeno palco de madeira, com uma cantora de funk (vinda não se sabe de onde). Ela cantava e rebolava o seu grande rabo. Tinha uns cabelos enormes e cantava maravilhosamente. A comunidade estava lá a dançar e outras pessoas do bloco também. Aqui sim todos estavam misturados e isso foi bom de sentir. Eu olhei para aquilo e pensei "eu vou ter de ficar aqui a sentir isto por mais um tempo". Mas sabia que, dentro de mim, não o conseguiria fazer se não soubesse como sair daquele lugar. E a primeira coisa que fiz foi falar com o grupo: "se querem ficar aqui.... eu também quero... mas precisamos de saber antes de mais nada como sair daqui!". Quando vi aquele palco, ou seja, mais uma parada para a "não saída" daquele lugar, automaticamente veio-me aqueles romances kafkianos quase circulares onde não saímos do mesmo lugar nunca.
Descobrimos que havia um autocarro a uns 300 metros... isso aliviou-me e conseguimos aproveitar aquele concerto surreal por mais umas horas. O céu estava agora limpo e não choveria com certeza mais naquele dia.
De facto às 23h estava um autocarro urbano que nos deixou na tal Estação São Benedito, onde depois apanhámos outro para ir para casa.
No final das contas... mais do que pensar o frio, o calor, o pó, a lama ou os trovões que passei... acho que o que fica mais forte na memória e na alma foi o pensar nas pessoas que vivem ali. E que lutam por aquele lugar. As pessoas que têm aquilo como o seu descanso, o seu abrigo, a sua paz.
É o pensar quantas dessas pessoas dessas nos cruzamos diariamente, conversamos pontualmente e nem sabemos que diariamente fazem, nas piores condições, o percurso que fizemos nós em um dia.
É muito estranho pensar e sentir tudo isto. Principalmente, é mais um dia para perceber que o auto controle é algo muito importante e principalmente perceber coisas que não têm como ser percebidas. É uma experiência em todos os sentidos da palavra. E esta é uma muito inesquecível.
É o pensar quantas dessas pessoas dessas nos cruzamos diariamente, conversamos pontualmente e nem sabemos que diariamente fazem, nas piores condições, o percurso que fizemos nós em um dia.
É muito estranho pensar e sentir tudo isto. Principalmente, é mais um dia para perceber que o auto controle é algo muito importante e principalmente perceber coisas que não têm como ser percebidas. É uma experiência em todos os sentidos da palavra. E esta é uma muito inesquecível.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
15 de Fevereiro
Primavera
Foi isto que vi - restos de neve no chão,
Três melros a espanejar-se,
E a minha vizinha que sai de casa em combinação
A pôr camisas do marido a secar.
A aragem da manhã torna-lhe difícil pendurá-las.
Levanta-lhe a roupa bem acima dos joelhos,
Ela teve de parar o que estava a fazer
E deu uma bela gargalhada, enquanto se tapava.
Charles Simic
tradução de José Lima
Foi isto que vi - restos de neve no chão,
Três melros a espanejar-se,
E a minha vizinha que sai de casa em combinação
A pôr camisas do marido a secar.
A aragem da manhã torna-lhe difícil pendurá-las.
Levanta-lhe a roupa bem acima dos joelhos,
Ela teve de parar o que estava a fazer
E deu uma bela gargalhada, enquanto se tapava.
Charles Simic
tradução de José Lima
sábado, 14 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
13 de Fevereiro
Mãe :)
Hoje lembrei-me deste poema na sequência de me lembrar dos devaneios da vida. Da vida. Das histórias, das imagens, das pessoas, das acções, dos acontecimentos.
Partilho contigo.
Um dia tranquilo para ti, hoje.
(...)
Hoje lembrei-me deste poema na sequência de me lembrar dos devaneios da vida. Da vida. Das histórias, das imagens, das pessoas, das acções, dos acontecimentos.
Partilho contigo.
Um dia tranquilo para ti, hoje.
(...)
Um cavalo-marinho mergulha em seus círculos de corais
mas em sua mente só releva a atualidade do belo.
O passado pode estar abarrotado de chateações
mas daqui pra frente ótimas fotos e melhores filmes
e amor e gravidez no bojo do macho
e horas infindas deitado nas areias
especulando nuvens
que se esgarçam ao sabor e ao deslize das figuras.
Um gosto permanecer aqui extasiado
e sem querer comparecer a nenhum vernissage
cansado dos artistas
que dão a seus quadros a última demão de verniz
e permanecer lasso das exposições e dos museus a visitar
e do dernier cri
esquecer os pacotes de encomendas à Amazon Books
e fugir dos seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos.
Quase morrer é assim:
uma cada vez mais crescente ojeriza com a “vidinha literária”
de par com a imorredoura memória de certas linhas,
por exemplo,
que durante o resto de tempo que me é concedido viver
e na hora H da morte,
estampada na minha face esteja a legenda:
O que amas de verdade permanece, o resto é escória.
Sonhar com Provenças e Venezas e Florenças.
Rever Piero della Francesca
e a Essaouira de meu amigo Garbil, o boxeador.
E a vista de Delft de Vermeer.
A Barcelona do poeta-clochard-palhaço Joan Brossa.
A cena de New York, minha e de todos e de Ashbery
e de Frank O’Hara e de ninguém.
Sobem fiapos da infância de um tabaréu:
ora eu era
uma piaba nadando por entre bancos de areia do Rio das Contas
ora eu era
um acari das locas do Gongogi — rio cheio de baronesas.
Idade do ouro fluvial, plástica, flamante.
Fogueira gigante das noites de São João. Fogos-de-bengala.
Eu sozinho menino e o Amadis de Gaula
e os outros todos principais cavaleiros
e as outras todas principais damas
que povoavam as varandas, os pastos, o curral, a balsa, a chácara,
as pedras, os capins e as matas da Coroa Azul raro Balito.
Convive-se com uma criatura sem imaginar de que reino
provém.
Zelar pelo deus Treme-Terra que meu coração devolveu.
Não cortejar a morte.
Não perambular pelos cemitérios
nem brindar o luar patético
com caveiras repletas de vinho tinto seco
como um Byron-Castro Alves gótico e obsoleto.
Sereno e cabeça dura — testa ruda —
mirar de frente a caveira
e as tropas de vermes de prontidão
(como observo vermes dentro de um pêssego)
mas por enquanto gargalhar da irrealidade da morte.
Gozar, gozar e gozar
a exuberância órfica das coisas
em riba da terra
debaixo
do
céu.
Waly Salomão
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
12 de Fevereiro
Hoje escrevo-te tarde.
Já deves dormir, assim espero. Sinal que estás descansada.
Hoje foi o dia em que me escreveste um dos emails mais bonitos de sempre. De sempre. Entrei no teu delírio e foi magnifico. Li-o mais do que uma vez em horas distintas para o saborear. Uma das vezes abri para ler uma frase aleatória e só isso. Tornaste-te ainda mais do que o que és e eu não sabia que isso era possível porque és tanto. E agora ainda mais, querida mãe. Ponho-te na pintura mais linda que existe, quem nem existe, e isso é superior.
Hoje foi o dia em que mudei de casa pela oitava vez desde que estou em Belo Horizonte (se não contarmos com o período que estive em Berlim; aí seriam nove mudanças). Deve ser hereditário.
Estou aqui nos condôminos e peço para ir à casa de banho e deparo-me com a seguinte sinalização na porta:
Diz me se não é no mínimo cómico!!
Este aviso, resolvi postar aqui para rir um pouco. Acho engraçado cada post assumir uma escrita diferente. Às vezes é dirigido a ti, outras vezes são ficções, outras vezes poemas e desta vez tem esta foto que é uma piada pronta!!
No entanto, a verdade é que prefiro os post que me fazem pensar. Parece que esses são os que me põe mais perto de ti. Estes, como o de hoje, são banais... Quotidianos... Cansam-te? São vazios?
Oh mãe!
Gosto muito de ti!
Muito, mãe, e do fundo do meu coração espero que estejas o melhor possível!!!
Anseio o nosso abraço...
Oh mãe!
Gosto muito de ti!
Já deves dormir, assim espero. Sinal que estás descansada.
Hoje foi o dia em que me escreveste um dos emails mais bonitos de sempre. De sempre. Entrei no teu delírio e foi magnifico. Li-o mais do que uma vez em horas distintas para o saborear. Uma das vezes abri para ler uma frase aleatória e só isso. Tornaste-te ainda mais do que o que és e eu não sabia que isso era possível porque és tanto. E agora ainda mais, querida mãe. Ponho-te na pintura mais linda que existe, quem nem existe, e isso é superior.
Hoje foi o dia em que mudei de casa pela oitava vez desde que estou em Belo Horizonte (se não contarmos com o período que estive em Berlim; aí seriam nove mudanças). Deve ser hereditário.
Estou aqui nos condôminos e peço para ir à casa de banho e deparo-me com a seguinte sinalização na porta:
Diz me se não é no mínimo cómico!!
Este aviso, resolvi postar aqui para rir um pouco. Acho engraçado cada post assumir uma escrita diferente. Às vezes é dirigido a ti, outras vezes são ficções, outras vezes poemas e desta vez tem esta foto que é uma piada pronta!!
No entanto, a verdade é que prefiro os post que me fazem pensar. Parece que esses são os que me põe mais perto de ti. Estes, como o de hoje, são banais... Quotidianos... Cansam-te? São vazios?
Oh mãe!
Gosto muito de ti!
Muito, mãe, e do fundo do meu coração espero que estejas o melhor possível!!!
Anseio o nosso abraço...
Oh mãe!
Gosto muito de ti!
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
11 de Fevereiro
Querida mãe,
o melhor do meu dia, hoje, foi o momento em que vieste falar comigo.
Que bom umas palavrinhas. Que está tudo bem. Que estás em casa. E agora começa o início daquele "salto branco" que eu falei no dia 1 de Fevereiro.
Hoje foi um dia perfeitamente banal. A única coisa diferente foi que o Augusto já pôs as malas na casa nova, mas ele fez sozinho... eu nem vi. Queria ajudá-lo mas estava a trabalhar. Amanhã devo conseguir dar uma força.
Não há ninguém melhor que nós duas que saiba o peso de uma mudança de casas. Embalar móveis, livros em caixas, panelas em jornal. Muita coisa. E as pessoas parece que sabem pouco o quanto isso custa. São poucas as que se disponibilizam para ir dar uma força.
Hoje lembrei-me quando em Benfica, tínhamos tudo pronto, nem nos sofás nos podíamos sentar e o camião das mudanças simplesmente não apareceu. Lembro-me de ti à janela a olhar para a rua. Era muito cedo. E nada. Começaste a stressar-te e eu achei um exagero. Daqui a nada ele chegava. Mas não. Não chegou e eu só me queria rir. Como é que alguém faz isso? Até que ligámos para uns russos. Quem é que tinha dado o contato, lembras-te? Ou não?.... Ai mãe estou a confundir tudo! Os russos foi do Principe Real para o Saldanha. E quem foi de Benfica para o Principe Real? Que confusão! Já foram tantas mudanças!...
Mãe guerreira!
Fez todas sozinha, normalmente com uma criança ou um adolescente ao lado!
Mãe guerreira! :)
Daqui a pouco vamos a um aniversário de uma amiga. Nada demais!
O trabalho novo é bom. As pessoas são muito simpáticas. O "material" é relativamente simples de montar. E faz bem para o tempo ir passando. Quero que o tempo passe, só para a nossa distância diminuir.
Acho que as palavras que usei mais neste blog foram "saudade" e "distância".
Almocei bem. O melhor foi a cenoura ralada e a beterraba ralada. Comi lagarto (está muito na moda o lagarto por aqui. Porque será?). Batatas cozidas. Arroz integral. Sumo de laranja natural.
O melhor do meu dia, hoje, foi o momento em que vieste falar comigo.
Hoje foi um dia perfeitamente banal.
Lembrei-me do inicio de um livro "Filomena Firmeza", aquele que te falei que li nas férias.
Hoje, deixo-te com ele.
Abraço-te.
Abraço-te.
Abraço-te.
(...)
Neva hoje em Nova York. Pela janela do meu apartamento, na rua 59, vejo o prédio em frente onde fica a escola de dança que eu dirijo. Por trás da fachada envidraçada, as alunas de collant terminam suas pontas, meias-pontas e entrechats. Minha filha, que trabalha como minha assistente, mostra a elas um passo de jazz, para descontrair.
Daqui a pouco vou me juntar a elas.
Entre as alunas, há uma menina que usa óculos. Ela os deixou sobre uma cadeira antes de começar a aula, como eu fazia com essa mesma idade nas aulas da senhora Dismailova. Não se dança de óculos. Eu me lembro de que, na época da senhora Dismailova, eu treinava durante o dia para conseguir ficar sem os óculos. O contorno das pessoas e das coisas perdia a nitidez, tudo se tornava desfocado, até os sons pareciam mais abafados. O mundo, quando eu o via sem óculos, perdia a aspereza. Ficava tão suave e macio quanto um travesseiro fofo no qual encostava o rosto e terminava por adormecer.
– Está sonhando com o quê, Filomena? – papai me perguntava. – Você deveria pôr os óculos.
Eu obedecia e tudo retomava a rigidez e a precisão costumeiras. De óculos, eu via o mundo tal como ele era. Não podia mais sonhar.
Aqui em Nova York, fiz parte de uma companhia de balé durante alguns anos. Depois, dirigi com a minha mãe uma escola de dança. Quando ela se aposentou, continuei sozinha. Agora, trabalho com a minha filha. O meu pai também deveria se aposentar, mas não consegue se decidir. Aposentadoria do quê, exatamente? Nunca soube a profissão dele de fato. Ele e a mamãe moram agora num apartamento no Greenwich Village. Em resumo, isso é tudo o que tenho a dizer sobre nós. Somos nova-iorquinos, como tantos outros. A única coisa um pouco incomum é a seguinte: antes de virmos para os Estados Unidos, passei minha infância no décimo arrondissement, um bairro de Paris. Lá se vão trinta anos.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
10 de Fevereiro
Querida mãe,
Há uns tempos comecei a ler "A Vida do Espírito" da Hannah Arendt. Ela propõe que as coisas que existem no mundo têm em comum uma coisa: nasceram para "serem vistas, ouvidas, tocadas, provadas e cheiradas, para ser percebidas por criaturas sensíveis, dotadas de órgãos sensoriais apropriados." Ou seja, nada e ninguém existe neste mundo sem um espectador.
Tudo pelo que estás a passar existe e eu não vejo. Não sou espectadora de ti, agora. Não te vi hoje sentada, no primeiro dia de tratamento. Não sei se leste, não sei se tinhas o iPad contigo, não sei quem estava ao teu lado. Não sei quem te beijou, não sei quem te abraçou. Apenas este dia existiu na minha imaginação e eu pensei em ti todos os minutos. Quando te imaginei estavas com o iPad. Estavas tranquila pensando "tem de ser e vai passar". O Jean estava ao teu lado. Recebeste ligações no telefone da Isabel, da outra Isabel e da outra Isabel. Depois de uma hora começaste a ficar inquieta e a querer ir embora. Irritou-te não o poderes fazer. Talvez cumprimentaste alguém ao teu lado. Eras a estranha, a nova.
Mas eu não disse a ninguém que todos estes minutos, todas essas horas eu estava a pensar em ti, a imaginar-te. E então? Estes meus pensamentos são reais? São reais sem espectador? Sem ouvinte? Só dentro de mim? E os sentimentos precisam de espectadores? De ouvintes?
Neste blog eu escolho o que te torno real. Não sabes ainda do anel que comprei na Bahia, das malas feitas para a casa nova, do que vesti hoje, do que almocei.
Há uns tempos comecei a ler "A Vida do Espírito" da Hannah Arendt. Ela propõe que as coisas que existem no mundo têm em comum uma coisa: nasceram para "serem vistas, ouvidas, tocadas, provadas e cheiradas, para ser percebidas por criaturas sensíveis, dotadas de órgãos sensoriais apropriados." Ou seja, nada e ninguém existe neste mundo sem um espectador.
Tudo pelo que estás a passar existe e eu não vejo. Não sou espectadora de ti, agora. Não te vi hoje sentada, no primeiro dia de tratamento. Não sei se leste, não sei se tinhas o iPad contigo, não sei quem estava ao teu lado. Não sei quem te beijou, não sei quem te abraçou. Apenas este dia existiu na minha imaginação e eu pensei em ti todos os minutos. Quando te imaginei estavas com o iPad. Estavas tranquila pensando "tem de ser e vai passar". O Jean estava ao teu lado. Recebeste ligações no telefone da Isabel, da outra Isabel e da outra Isabel. Depois de uma hora começaste a ficar inquieta e a querer ir embora. Irritou-te não o poderes fazer. Talvez cumprimentaste alguém ao teu lado. Eras a estranha, a nova.
Mas eu não disse a ninguém que todos estes minutos, todas essas horas eu estava a pensar em ti, a imaginar-te. E então? Estes meus pensamentos são reais? São reais sem espectador? Sem ouvinte? Só dentro de mim? E os sentimentos precisam de espectadores? De ouvintes?
Neste blog eu escolho o que te torno real. Não sabes ainda do anel que comprei na Bahia, das malas feitas para a casa nova, do que vesti hoje, do que almocei.
E talvez por isso, a distância seja difícil. Porque ela corta as pernas da nossa realidade. A única coisa que podemos fazer é criá-la, escrevê-la...
Mas... se os nossos pensamentos não são reais quando não os tornamos verbais, então nós também não existimos, pois pensamos o tempo todo. Ou então, por onde estamos quando não pensamos? E o que significa isso da ausência de pensamentos? Pensar sem som? Pensar será a possibilidade de ver? Ou ver é a possibilidade de pensar? Sem imagem? Sem som? Sem cinema? Sem nós?
Tenho ânsias que a nossa realidade fique (mais) real. A minha e a tua. Que eu saiba como é a cadeira que te sentas quando fazes tratamento, como são os teus olhos nesses dias, como é o que te rodeia. Sei que em breve vou fazê-lo e vou estar perto, mas nunca pensei que a imaginação magoasse mais que o real. Sempre pensei o contrário. Mas, neste caso, magoa-me que me reste apenas a criação.
Fiz este blog para que, ao menos, essa criação e essa imaginação seja para ti. E, muitas das vezes, sobre ti.
Mas por outro lado, já que existe essa distância agora, que bom que nos resta isso... que nos restam as imagens e o pensamento (real ao não) para nos aproximar.
A importância que a moldura com as nossas fotos te fosse entregue em mãos era para que algo, agora, se tornasse (mais) concreto. Para que pegasses. Para que existisse. Porque, talvez para mim, as coisas existam e eu sou espectador do meu próprio mundo, mas elas ganham outro sentido quando partilhadas com quem amo. Contigo.
"Já que os seres sensíveis - homens e animais, para quem as coisas aparecem e que, como receptores, garantem sua realidade - são eles mesmos também aparências, próprias para e capazes tanto de ver como de serem vistas, ouvir e serem ouvidas, tocar e serem tocadas, eles nunca são apenas sujeitos e nunca devem ser compreendidos como tal".
Mãe, na imaginação posso tentar o que eu quiser.
Mas só tu me poderás dizer: "correu tudo bem, querida. até já" para que isso se torne real para mim também.
Então, aguardo-te.
No teu tempo.
No teu silêncio.
Na tua imaginação.
Sou tua espectadora.
:))
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
9 de Fevereiro
Abri a porta devagarinho.
Não queria acordá-la. Ela devia estar a dormir e esse sono era precioso.
A porta rangeu levemente mas não a acordou.
Ela estava deitada em posição fetal.
Encolhida.
Quietinha.
Descansada.
As mãos estavam por baixo do seu rosto e as bochechas, que eram grandes, esborrachavam-se nas suas mãos com o peso da cabeça.
Cheguei-me perto dela. Tão bonita. A respiração era tranqüila.
Na mesa de cabeceira deixei as flores que lhe comprei naquela tarde de sol. Orquídeas. Sei que ela adora. Quando acordar quero que ela as veja. Que me veja, que me sinta e que me sorria.
Saí do quarto cor de rosa, devagarinho.
Fechei a porta e aguardei no andar de baixo.
Em silêncio. Sozinha.
Mas o tempo agora, ao contrário dos meses anteriores, não me pesava mais. O tempo não pesava. Afinal, ela estava ali. Eu estava ali. Tão perto...
E por isso o tempo ficou mais leve.
Que alívio que era, estar finalmente sentada naquele sofá branco. Perto dela. Tão perto. O tempo ficava finalmente mais leve. Mais leve. Tão perto. Tão perto.
O sol pôs-se. Eu estava na mesma posição e o silêncio era ainda o mesmo.
Nesse instante oiço a porta a abrir-se devagar.
- Rita... - ouvi ela chamar-me.
- Sim...
Subi as escadas. Ela estava de camisa de noite branca, de pé, perto da porta.
Olhou para mim e sorriu. Com os olhos pediu-me o abraço que lhe dei de imediato.
Foi demorado. Um abraço de veludo: lento, bom.
Ela disse-me:
- Obrigada querida. É tão linda, a flor.
- É tua.
Passei-lhe a mão pela cabeça.
- Queres deitar-te comigo? - perguntou
- Sim!
Deitámo-nos as duas de rosto virado de frente um para o outro. Olhámo-nos nos olhos profundamente. Comecei-lhe uma história. Os meus olhos estavam muito perto do seu rosto e isso fez com que pudesse desenhar com muito cuidado o contorno dos seus lábios. Tinha sardas em toda a face.
Contei histórias sobre gatinhos que bebiam leitinho. Contei sobre uma menina que tinha uma avó que a sentava à janela e as duas regavam plantas, no final do dia.
Sabíamos da nossa intimidade. E só nós as duas sabíamos dela.
Ela sabia porque é que eu contava a história dos gatinhos e porque é que eu contava histórias de avós à janela com netas.
E só nós sabíamos. E isso era o melhor.
Abracei-a mais. Veludo outra vez: lento e bom.
E assim dormimos as duas esperando o sol que nascia de novo. E ele nascia de novo e dava-me a certeza da leveza do tempo de estar perto dela. O nosso aconchego era tão único.
Na cama, com dois edredons que ela escolheu sozinha em algum lugar: um beje e um aos quadrados rosa e beje.
Agora éramos só as duas com a orquídea nova junto a nós!
domingo, 8 de fevereiro de 2015
8 de Fevereiro
Querida mãe.
É domingo. Para nós, isso pouco importa. Fatiamos o tempo de uma forma diferente dos outros. Não temos mais regras, não temos mais horários.
Mas hoje foi domingo. Soube a domingo. Choveu quase o dia todo e estivemos sempre em casa. Comemos, dormimos, vimos séries, fizemos uma outra palhaçada... Simples. E a chuva tem um poder incrível. A água, de uma forma geral. Aqui, a chuva faz-me estar mais perto da Europa. Torna as coisas mais iguais. A paisagem é mais homogénea!
Saímos de casa. Tinha vontade de comida chinesa. Encontrámos um restaurante e decidimos tentar. Escolhemos os típicos rolinhos primavera para entrada (esses nunca falham) e para prato principal arriscamos no "frango trovão com arroz frito". Não imaginas o que vem para a mesa! Não imaginas!!!
Uma travessa enorme de um arroz... Mas era um arroz queimado... Como quando te esqueces da panela ao lume...
Depois, o empregado pega numa tigela gigante, a ferver, e deita um molho de tomate com frango e camarão sobre esse arroz. Estava muito, muito, mau. Provei um pouco do frango a parecia plasticina. O arroz era incomestível. Ficámos a olhar um para o outro atordoados sem saber o que fazer. Nunca me tinha acontecido. Mandaríamos aquilo para trás com que argumento? Nós só riamos! Pedimos para levar e demos a um sem abrigo.
Acabámos por ir a um indiano com mais dois casais de amigos e escolhemos só o que conhecíamos. Foi como se não tivéssemos saído dos rolinhos primavera!
Deito-me agora sobre um domingo que soube a domingo.
Sei que o dia será chato amanhã mas escrevo-te por aqui... E acho que vou deixar as coisas quotidianas e voltar à poesia para te embalar na semana terrível que aí vem!
Abraço-te, querida mãe!
sábado, 7 de fevereiro de 2015
7 de Fevereiro
Querida mãe,
aqui as coisas são diferentes. Aqui, as paisagens são diferentes daí. A comida é diferente, o cheiro é diferente, as pessoas são diferentes, as cores são diferentes, o toque, os transportes, o céu, o ritmo, o movimento, a palavra e o som.
Aqui é diferente daí.
Aqui não há mar, não há mãe, não há ar, não há chão.
Aqui não há rio.
Mas aqui, mais do que aí, há goiabas. Aprendi a gostar. No jardim da casa do Augusto há uma árvore de goiaba. E hoje nasceu mais uma. Cada dia nasce uma nova. E amadurecem na árvore, suspensas, até ficarem amarelas e doces. Comem-se como uma maçã, mas o caroço é horizontal e não vertical.
Agora arranco da árvore e como. Como como uma criança descalça num quintal, num jardim, no campo. Na verdade, o lugar não interessa. Interessa que seja como uma criança. E que seja descalça.
A textura é estranha. É nova. Como tantas outras "texturas" que por aqui se estranham e ao fim de quatro anos, ainda se estranham.
As nuvens brancas carregadas vieram para ficar. A chuva não é constante, mas quase. E faz frio. Mas agora é Verão. É estranho. Ao fim de quatro ano ainda se estranham as estações ou a falta delas.
Hoje vesti as minhas calças verdes. Prendi o cabelo muito alto e pintei-me (como tu dizes). E por isso, enquanto fiz isso tudo pensei em ti. Em frases que já te ouvi dizer mais que uma vez.
- "Prende o cabelo bem alto. Isso!!"
- "Pinta-te. Põe-te bonita."
- "Mexe-te."
É sábado. Vou agora ao cinema ver o novo filme dos irmãos Dardenne. Dizem que é bom. Depois conto-te.
Acordei com o teu email e foi tão bom. Sei que tens amigos aí hoje. Que vão almoçar e que com certeza se vão rir. É assim que vos imagino. Em algum momento irás para a tua cadeira cor de laranja. Ler, jogar um jogo, embora eu sinta que hoje só te vás sentar lá. Olhas as plantas que estão na varanda e espero que em algum momento sintas o enorme beijo que te envio e que não o estranhes. Que esses sejam sempre nossos sem nunca se estranharem. Mesmo à distância.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
6 de Fevereiro
Querida mãe,
(...)
(...)
:))
Sorriso. Sorriso para ti.
Hoje sei sobre o que te quero escrever... Mas vejo esta folha em branco para o fazer e... sei que ela é o que nos une neste momento e isso revolta-me. Ser apenas uma folha em branco que nos permite falar e comunicar. E por isso escrevo "sorriso". Sorriso para ti. Tenho vontade que a escrita se torne, brutalmente, em ações. Que a escrita se mova. Que ganhe vida e se transforme. Nos transforme.
Hoje queria escrever-te sobre um texto que escrevi em 2012. Não sei se te lembras: este. (a foto no blog tirei contigo em Ouro Preto quando vieste aqui, lembras-te?)
Tenho-me lembrado dele. Acho que na altura, por algum motivo que não descreverei aqui, me senti muito frágil. E de novo então me vem à cabeça a ideia de uma capa. De um fato mágico, protetor da vida. Protetor de nós. Um fato mágico invisível que nos torna imortais. Neste conto, Bárbara perdeu esse fato de super poderes, um dia, antes de sair de casa. Andava pelas ruas meia estranha.
E às vezes andamos meio estranhos mesmo... nus. Nus de identidade, nus de força. Sem o nosso fato de super poderes.
Relendo o texto vejo, até, como a minha escrita mudou. Como eu mudei junto com ela e como ela me pertence. Que bom: a evolução! Para mim, o tempo será sempre o conceito mais mágico e bonito que temos na vida. Mais do que o cinema. (!!!!...)
(...)
Aqui (Brasil) estão todos doidos com o Carnaval, já.
Eu até comprei uns tecidos bem coloridos e brilhantes para ver se me animava. Para ver se interrompia alguns segundos de preocupação, de ânsia. Que parecem ser constantes e ininterruptos.
Adoro cores e tu sabes. Adoro lojas de lãs! Adoro lojas de tecidos!
Adoro cores e tu sabes. Adoro lojas de lãs! Adoro lojas de tecidos!
Há um bloco de Carnaval que se chama "Então Brilha".
As duas cores são estas:
As duas cores são estas:
(...)
Hoje fui fazer um teste de ator para o filme. Em principio uma das cenas que íamos fazer incluía um batom vermelho. Eu ia levar o meu para a atriz usar em cena e decidi colocar também.
(...)
Como percebes... hoje o meu post é tão banal.
Tão banal... interrompido.
Curto.
A poesia lenta.
A cor devagar.
A linha curva.
A tentativa recta.
Almocei com o Augusto umas sandes. Comi mexicano com o João, meu amigo.
Conversámos e partilhámos histórias. Isso é bom.
Conversámos e partilhámos histórias. Isso é bom.
Aqui.
Longe.
Partilhar intimidade com amigos. Ter amigos. Rir um pouco. Qualquer coisa. Qualquer coisa.
Qualquer coisa, tanto faz. Agora qualquer coisa tanto faz enquanto estiver aqui. Só penso em chegar aí.
Ainda tentámos ver um filme do Álmodovar. Adormeci mas ainda vi umas cenas iniciais muito boas: uma mulher que todos os dias, desde que o marido morreu há dois anos, usava com ela algo dele. E um dia colocou umas botas dele mas que lhe estavam tão apertadas, tão apertadas, que ela não as conseguia tirar de jeito nenhum!!! O melhor é que em uma das cenas a bota sai mas ele continua a tentar tirá-las (erro no filme e só repara quem está muito atento!
(...)
É tarde já. Muito tarde. Três horas da manhã. Mas é viciante vir aqui escrever-te todos os dias. E embora já tenhamos falado hoje (e que bom que foi!) não consigo ir dormir sem te deixar aqui pensamentos vagos, frases soltas, coisas pequenas do meu dia.
(...)
Hoje despeço-me como num email:
Com um abraço carregado de ternura. Com uma posição especial dos meus braços neste abraço: eles enrolam a tua cabeça, e não o teu corpo. Estamos sentadas no teu sofá branco e coloco-me um pouco acima de ti para que esta posição seja possível e beijo-te a cabeça enquanto te abraço com as mãos enroladas no teu corpo. E tu só repousas a tua cabeça na minha e deixas-te entregar a mim. Tua filha.
Hoje é só isto.
E a ternura dos dias. Sempre.
A ternura dos dias todos os dias. Sempre.
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